Quanto tempo dura o teu sorriso?

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Fotografia © JerzyGorecki | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Quanto tempo dura o teu sorriso? Semanas, dias, horas ou apenas o tempo de uma selfie? Sim, porque, hoje em dia, a felicidade dura apenas o tempo de a partilharmos com alguém através das redes sociais. Já para não falar que só vamos ao cinema, à praia, ao ginásio, a um concerto ou a um restaurante para podermos partilhar com o mundo o quão interessante e feliz é a nossa vida. Será mesmo assim?

Esta falta de espontaneidade que tomou conta dos dias deixa-me triste. Já ninguém toma ação sem pensar na fotografia perfeita para postar. Interessa ter o melhor modelito, o cabelo arranjado, a cara maquilhada e a melhor expressão, o melhor sorriso. Tem que ser perfeito! Mas lamentavelmente há, ainda, quem não se aperceba que as selfies são as nossas piores fotografias. Ficamos com caras horríveis e deformadas.

Já ninguém vai beber um café contigo e está ali de corpo e alma, ou dançar contigo numa festa sem o partilhar, ou num jantar sem meter olhos ao feed de notícias. As tardes de jogos de mesa foram substituídas por jogos em rede. As notícias, essas, sabemo-las mais rápido do que passam na televisão. E a nossa contestação vai com um boneco triste ou indignado. E ficamos por aí. Não, não vale a pena tomar ação. Basta mostrar a nossa raiva com uma publicação. E achamos que estamos a fazer o melhor, o possível. E não nos damos conta da forma ridícula em que estamos a viver.

Partilhamos parvoeiras, perdemos horas a olhar para as publicações dos outros e a deprimir porque não temos uma vida tão interessante. Comparamo-nos, inevitavelmente, e queremos ser melhores. Controlamos a vida dos outros, até da pessoa que amamos. Leu a mensagem às tantas horas, e não respondeu… Tentamos avaliar o quanto gostam de nós pelas mensagens, pelo número de likes. Deixamos que controlem a nossa vida. Porque, se também nós lemos uma mensagem e não respondemos, é um problema.

E, cada vez mais, as coisas estão de forma a sermos controlados. Telemóveis cada vez mais desenvolvidos, acesso fácil à internet, redes sociais com mais funcionalidades. E não adianta mentir a dizer que estás em tal sítio, porque afinal o gps informa da tua localização. Ou azar que aquela cena não atualizou e crias um problema porque pensam que estás a mentir. A vida tornou-se um stress. Em que é preciso estar constantemente a ponderar o que partilhamos e o que escrevemos, porque agora os julgamentos são feitos assim. Via digital.

Consigo ver inúmeras vantagens no desenvolvimento das tecnologias. Aliás, já não vivemos sem elas. Encontramos amigos que não víamos há muito, temos acesso à informação de forma rápida e eficaz, e é um ótimo meio de publicitação de eventos e notícias. Sabemos em primeira mão quem está grávida, quem casou, quem morreu, quem mudou de trabalho, para onde aquela prima, muito afastada, foi de férias…

Contudo, a facilidade de se trocar mensagens e informação das nossas vidas leva a um desinteresse geral, de realmente estar com os outros. Comunica-se cada vez menos cara a cara, coração a coração. Presencialmente. Encontramos muitas pessoas na internet e achamos que as conhecemos pela partilha de palavras, fotografias, música… Aliás, hoje em dia, o conceito de amigo é muito virtual. Muitas vezes a pessoa, que te enviou um convite de amizade nas redes sociais, nem te fala na rua. É triste!

Por mais desenvolvidas que estejam as tecnologias, se não nos empenharmos com o coração, vamos continuar a viver num mundo de aparências e falsidade. Em que as pessoas são o que quiserem ser atrás de um ecrã. É urgente ouvir a voz, ter a presença física, sentir o calor humano, conhecer as expressões, abraçar, beijar, ouvir as gargalhadas e até o choro, da outra pessoa. Senão em que seres humanos nos estamos a tornar? É urgente estar olhos nos olhos para saber ler a alma do outro.

E volto a perguntar: quanto tempo dura o teu sorriso?

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CARINA MAURÍCIO, a fotógrafa
É budista e conservadora-restauradora. É de riso e choro fáceis. Tem tanto de sensível, quanto de corajosa e lutadora. Adora fotografar, jogar ténis e viajar. Viciada em comida, é fã de comida italiana. Gosta de dormir, de café, de chocolate. Dançar? Pode ser a noite toda. Mas também gosta de ficar na ronha, em casa, entre filmes e pipocas. Adora o som da chuva a cair no inverno e o som do mar em dias de verão. Campos floridos enchem-lhe o olhar, assim como as cores das folhas do outono. Apaixona-se facilmente e é uma apaixonada pela vida. Uma geminiana pura.