O sonho que vive no meu coração…

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Fotografia © Annie Spratt | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Como acordei feliz naquela manhã!

Estava para breve o nascimento do meu primeiro filho. Isso iluminava todos os meus dias. E sonhei contigo, meu irmão. O meu coração ficou mais aconchegado!

Irmão, companheiro, protetor, confidente… As nossas vidas completavam-se. Foi um sonho que me convidou a ficar mais um pouco contigo. Li as tuas cartas, ouvi a música que gravaste para mim. Naquele momento senti, mais uma vez, como as tuas palavras, os teus ensinamentos e os teus conselhos sempre foram tão importantes na minha vida…

— Se ele te conta tudo isso, é porque gosta muito de ti. Segue em frente!

Foi a tua resposta após teres lido aquela carta que me deixou tão insegura. Aconselhada por ti, tomei a decisão que marcou definitivamente o meu futuro. Segui em frente, sim. Fui feliz!

Recordei aquela tarde de domingo, tão marcada pelo grande desânimo que, então, se apoderou de ti. Tu, que tantas vezes dizias «Eu até já fiz uma guerra», estavas agora perante algo que te atormentava. Não estava a ser fácil tomares a decisão que se impunha. Onde estava aquela determinação que tanto te caraterizava? Mais uma vez, só nós dois. Tivemos uma longa conversa. Analisámos os nossos sonhos, os nossos medos, os nossos projetos de vida. Finalmente, conseguiste tomar a tua decisão! Encaraste a realidade de uma forma tranquila. Não traíste os teus ideais. Assumiste plenamente as tuas responsabilidades. Sorriste novamente para a vida. Voltaste a acreditar na realização dos teus sonhos. Vivemos um momento muito belo da nossa cumplicidade. Permaneceu sempre só nosso. Foi mais um segredo guardado nos nossos corações.

Pela minha mente continuaram a passar imagens do nosso percurso de vida, tão vivamente partilhado. Contigo, com os teus amigos, eu era «um de vós».

— Podeis falar à vontade. A minha irmã pode ouvir tudo!

Assim acontecia, tudo se falava, sim. Era-me permitido entrar naquele mundo de jovens rapazes, cheio de sonhos e fantasias. Eram muito jovens, mas já necessitavam apagar as memórias daquela vivência tão recente de uma guerra que lhes roubara tanto da sua juventude.

Assim me via cúmplice daquela alegria de viver. Havia que compensar aquele lapso de tempo. Havia que retomar o rumo que desejavam para as suas vidas. Havia que viver amores!

Assim acabou por acontecer aquela inesquecível noite no casino. A teu pedido, convidei a menina por quem o nosso amigo andava apaixonado. Lá fomos os quatro.

Quando chegámos e nos preparávamos para entrar fomos surpreendidos por algo inesperado:

— Desculpem. Os senhores não podem entrar.

Estabeleceu-se o diálogo…

— Não podemos entrar? Qual é o problema?

— Os cavalheiros não estão a usar gravata. Sem gravata não podem entrar.

A noite estava fria, convidava a agasalhos. Os cavalheiros, elegantemente vestidos, usavam camisolas de gola alta. O nosso amigo decidiu gerir a situação:

— Meu amigo, repare, a roupa que estamos a usar não se adapta a usar gravata. Já viu? Se usarmos gravata, ficamos ridículos!

— Eu só lhes posso dizer que sem gravata não podem entrar. Tenho aqui gravatas. Posso emprestar…

— Meu amigo, dê cá as gravatas!

Perante o olhar atónito de quem estava a ser tão gentil, o nosso amigo pegou nas gravatas e, ao mesmo tempo que se afastava, ía dizendo:

— Que boa ideia, meu amigo! Que lindos vamos ficar… Que nosso senhor lhe pague!

Foi esta a reação de quem ainda estava cacimbado, de quem estava de ressaca de uma recém estadia na guerra em África. Foi assim a nossa triunfal entrada no casino.

A noite decorreu conforme o desejado. O cupido andou por ali a fazer das suas. Alguém se rendeu a um coração apaixonado. E, meu irmão, também não faltou o teu sentido de humor:

— Não tenho sorte nenhuma! Agora, que está a chegar a hora da ternura, só tenho aqui a minha irmã!

Naquela manhã não senti as horas a passar. Umas após outras, recordei as nossas conversas, as nossas confidências. Revivi aqueles momentos mais íntimos quando procurávamos um conforto… Aí, os nossos corações ficavam mais unidos que nunca! Como era tão bom sermos aquele porto de abrigo recíproco e aconchegante! Não havia segredos. Não havia barreiras. Havia aquele amor incondicional!

Agora, mais uma vez, a guerra nos separava. Cá estava eu a viver a minha aventura, o meu amor. Sentia aquele abraço que demos na despedida, soavam nos meus ouvidos as tuas palavras:

— Dá-me notícias. Quero sempre saber como estás.

Nas cartas que te escrevia era minha preocupação fazer-te sentir a minha felicidade. As tuas cartas eram a confirmação de que saboreavas a vida, que a vivias com a intensidade e o entusiasmo que te eram tão peculiares.

Sim, aquele sonho veio mitigar saudades… Contudo, talvez não tivesse acontecido por acaso…

Naquela noite, enquanto um sonho me trazia a tua companhia e me fazia feliz, tu partias, deixavas-nos… A tua vida era-te roubada! Naquela manhã, quando acordei tão feliz porque tinha viva a tua presença, muitos já choravam a tua perda!

Esta realidade foi-me escondida. Não havia condições, nem coragem para tal me ser revelado!

Fui mãe. Escrevi-te para te participar… Nunca recebi a resposta!

Tornava-se inevitável. Teve que chegar o momento que todos temiam. Tive que saber!

Não consigo encontrar palavras para descrever o momento. O sofrimento foi brutal! Não houve lágrimas suficientes para atenuar a dor. Não houve palavras capazes de trazer algum conforto! Nada podia ajudar-me, já que nada podia trazer-me de volta aquela vida!

E foi assim que aprendi a viver, tendo um grande sofrimento por companhia. Assim, aprendi que não podemos deixar que o sofrimento nos impeça de viver, nos impeça de amar aqueles a quem prometemos o nosso amor. Também aprendi que, quando perdemos um grande amor, este nunca será substituído. Ele viverá para sempre no nosso coração.

Passadas que foram algumas décadas, tudo continua muito vivo, muito presente! O que sinto hoje, afinal? Afinal, até consigo falar de tudo isto e sorrir… Mas não foi sempre assim!

Durante anos, muitos anos, as lágrimas nem sequer me deixavam falar… Poderia parecer que me ía esquecendo! Pura ilusão… Se as lágrimas me embargavam a voz, deixei de falar de ti, sim! Apenas evitava tornar vivo e visível o sofrimento que me acompanhava.

E, finalmente, o que aconteceu? Já não há lágrimas, porquê? Com o decorrer dos anos algo mais eu aprendi:

Quando perdemos alguém, que muito amamos, a dor é tão tamanha que não deixa nunca de doer… Apenas nos habituamos a ela, como se de uma parte de nós se tratasse. E, sim, ela fará sempre com que nos recordemos… Então, finalmente, conseguiremos, sim, recordar sem chorar!

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MARIA REIS, a avó-sorrisos
Ela não é uma mulher rica. É, sim, uma rica mulher! É dona de um coração generoso, que já ultrapassou sofrimentos, mas também sabe muito sobre o amor. É sonhadora: os sonhos estão sempre lá e o seu percurso de vida foi-se construindo com a realização de muitos deles. Desafios? Sim, aceita-os com determinação e entusiasmo. E, como alguém disse, «às vezes, é uma caixinha de surpresas».