Pertenço-te [mas só a vida sabe quando]

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Fotografia © Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Pertenço-te!

Sim, sinto-me tua. Tu, que ainda não és meu. Olho para a linha do horizonte e vejo-nos aos dois no futuro. Mãos dadas, corpos colados. A noite a nascer só para nós os dois. O sol a adormecer com o sorriso da nossa paixão. Nós estamos lá, os dois, olhando o mar que hoje nos separa.

Pertenço-te. Sou tua.

E tu ainda não estás aqui, ao meu lado. Sorris-me todos os dias, por entre as letras das mensagens que me envias. Sinto o cheiro das tuas palavras doces, que chegam até mim. Aquelas declarações sem som, de quem ama sem dúvidas. A voz da paixão que vive entre nós. O amor que não nos deixa a sós e que procura o caminho certo do futuro que nos pertence.

Não és meu, só porque a vida desenhou esta barreira invisível entre nós.

A vida decidiu que nos teríamos que amar à distância. E nós destruímos essa barreira física e passámos a viver de olhos fechados este amor que só as nossas almas conhecem. Vivemos esta paixão que nos aquece os corpos feridos, onde o frio do passado deixou marcas que estamos a curar.

O meu coração sofria em silêncio. A minha alma gritava silêncios que ninguém ouvia. Tu escutaste o ruído deste coração que chorava ao ritmo da música da sua vida. Viste o que ninguém mais via e abraçaste uma alma que te entendia. Despiste-me daquele manto de sofrimento que me cobria. Substituíste-o pelo abraço que deixou em mim o calor da paz de que eu precisava. Tu secaste as lágrimas, que os outros alimentavam. Derreteste o gelo dos meus sentimentos.

Quantas vezes tentamos lutar contra o tempo! Tentamos ser mais rápidos que as horas, para podermos antecipar o futuro. Pensamos que podemos fugir do passado e saltar sobre o presente. Tentamos livrar-nos do peso do sofrimento que temos sobre os ombros. Pedimos à vida asas para podermos voar para longe dos nossos problemas.

Quem não tentou já despir-se das roupas justas de uma história que já não lhe serve ao corpo? Para isso, pensa que a melhor solução é uma corrida contra o tempo. Fugir dele, na tentativa de agarrar um futuro que ainda não chegou. Um futuro que ainda não nos pertence e que não sabemos se irá algum dia ser nosso.

Quantas vezes já julgamos que a nossa história de vida estava perto do fim? Quantas vezes já sonhámos com outro final diferente daquele que os nossos olhos veem e que o nosso coração sente? Imaginamos outra vida, longe deste corpo, que sofre o peso da sua existência. Julgamo-nos num espaço que não era nosso e não nos conseguimos ver em lado algum. Estávamos no mundo e o mundo não era nosso.

Tantas vezes, na vida, já pensámos assim e a verdade é que é sempre a vida que define o nosso tempo. É ela que nos diz quando é o tempo certo. De nada nos vale essa corrida louca para derrotar o tempo. O tempo é tudo o que temos para viver, um momento de cada vez e sempre na hora certa. A agenda da nossa vida está nas mãos do destino e é ele que sabe tudo o que está para chegar.

Agora, pertenço-te. Sei que és único. Sei que a vida te escolheu, mas só ela sabe o momento certo para os nossos futuros se cruzarem. Por enquanto, somos passados que se encontraram e presentes que ainda estão distantes. Sei que a vida guarda, com ela, o mistério de tudo o que será nosso. Do que nos pertence e que ninguém nos irá tirar. Uma verdade que ela guardou durante anos. A verdade que nós já descobrimos, mas em que ainda não podemos tocar.

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ANGELA CABOZ, a miúda gira
Nasceu em Tavira há 49 anos. Desde a adolescência que é uma apaixonada pela leitura, pela escrita, pelo cinema e pela música. Escreve sobre sentimentos e, nas palavras, reflete a maneira de ver e de sentir o mundo. Em 2014, realizou um sonho: a publicação do seu livro «À procura de um sonho». Desde então, tem participado em várias obras coletivas.