Sou criança… até um dia

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Fotografia © Paul Bence | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Sou criança. Sou feita de perguntas. Tenho a esperança na mão e a inocência no coração. Tenho, em mim, todos os sonhos do mundo e são esses sonhos que me movem. Acredito no impossível e no inexplicável. A minha imaginação é o meu universo.

Sou árvore em crescimento. As minhas raízes tentam encontrar o seu caminho por entre a terra seca e dura. Ergo os meus braços à procura do meu espaço neste mundo dominado por adultos angustiados e apressados.

Conto com quem me deu a vida para ajudar-me a crescer. Para guiar os meus passos. Não lhes peço certezas, apenas cuidado e atenção. Tudo é tão novo e estranho para mim. Desconheço o perigo. Para mim tudo é uma aventura. Não sei o que é certo ou errado, onde está o bem ou o mal. Preciso que me ensinem a distingui-los. Ainda não sei que nem tudo é preto ou branco, nem conheço o meio-termo.

Quero seguir o meu coração, mas preciso que me deem a mão. É tudo tão grande e assustador à minha volta.

Ainda não sei bem o que é o tempo, mas parece-me ser coisa que ninguém tem. Não entendo este mundo, onde os meus pais, tantas vezes, correm de um lado para outro e pouco tempo lhes sobra para mim. Correm de manhã porque têm que ir para o trabalho. Correm ao fim do dia por terem outras coisas por fazer e por despachar. Arrancam-me da cama cedo, chego a casa já de noite. Gosto da escolinha, mas também quero brincar com eles.

Os adultos estão sempre cansados e, às vezes, até zangados. É como se estivessem sempre de castigo. Porque é que quando crescemos ficamos assim? Porque é que o tempo encurta? Preciso deles. Quero que estejam comigo. Mãe, quero o teu colo e o teu sorriso. Pai, quero o teu abraço e a tua gargalhada. E quero mais do vosso tempo.

Sou pequenino e ainda não sei andar sozinho. Vou precisar que me puxem as orelhas e que me digam que não. Não preciso ouvir sempre sim. Não me deem tudo o que vos peço. Preparem-me para, um dia, sobreviver no vosso mundo. Não poderei ser sempre protegido por vós. Mesmo com as vossas dúvidas, vocês sabem mais do que eu. Não me compensem com coisas pelo tempo que não me podem dar. Façam antes bom uso do pouco que têm.

Tenham paciência comigo. As inquietações que trazem convosco não são culpa minha. Sou árvore pequenina. Preciso que me cuidem com carinho e que me reguem com amor. Preciso que me cortem os ramos que crescem em direção incerta e que zelem pelos que crescem na certa.

Sou criança. Tenho a esperança, a inocência e os sonhos também, mas não tenho tempo extra para vos dar. Um dia serei apenas mais um de vós. Mais um adulto. Vocês correm e levam-me atrás. Peço-vos que esperem por mim. Os meus passos são mais pequenos e hesitantes. Esperem para que possa seguir ao vosso lado. Não voltarei a ser criança. O que descurarem, agora, faltar-me-á depois.

Sou criança, mas quero ser homem, que foi amado e educado pelos pais e não só na escola e pelos professores. Muito menos pelo mundo duvidoso da internet, que nos expõem a tudo e não olha a quem.

Preciso dos meus pais e eles de mim.

Pai, mãe, tenho-vos a vocês e vocês têm-me a mim. Só não temos tempo para nós.

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ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.