O avô ainda gosta da avó?

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Fotografia © Carina Maurício | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Eva, 78 anos, originária de uma família com dez irmãos. António, 82 anos, tinha quatro irmãs e um irmão. Estes são os meus avós paternos, que vamos em seguida conhecer um pouco melhor.

– Como foi a vossa infância?

Avô: Era a trabalhar…

Avó: O primeiro trabalho dele foi a pastar as burras. Em vez de andar na escola, andava a pastar as burras, para aí com seis anos.

Avô: Ganhei a primeira jorna com 13 anos, quando fui trabalhar mais o meu irmão. Ganhava o mesmo que os homens.

Avó: Trabalhavam num casal. Faziam de tudo. Trabalhavam na casa, a criar bezerros, na agricultura…

– E trabalhou aí até ir para a tropa?

Avô: Sim. Fui para a tropa aos 19 anos. Estive lá 18 meses. Trabalhava de sapateiro. Aprendi o ofício antes de ir para a tropa, com o vizinho da minha irmã, ao sábado e ao domingo. Ele era sapateiro e depois ela pediu-lhe para ele me ensinar. Porque os meus sobrinhos já eram todos sapateiros. Quando jurámos bandeira, fomos todos chamados à parada e perguntaram a cada um o que sabia fazer. E, então, como eu sabia de sapateiro, trabalhei de sapateiro. Depois, quando saí da tropa, continuei a trabalhar de sapateiro.

– E a sua infância avó?

Avó: Foi a trabalhar. Eu desde que me lembro de existir, trabalhei sempre. Se calhar, tinha aí uns 4/5 anos.

Avô: Foi a levantar tijolo.

Avó: O meu pai tinha uma cerâmica de tijolo [uma olaria] e nós, quando éramos pequenos… o tijolo ficava assim deitado… e a gente tinha que o ir por a pino para ele enxugar. Depois, comecei a ganhar a jorna com 7 anos, a dar serventia ao pulverizador. Ainda não podia com o caneco da água já andava a dar serventia aos pulverizadores, e era com aqueles canecos grandes de madeira que, às vezes, estavam aluídos e, enquanto não inchassem, molhavam uma pessoa toda, com o sulfato e a cal a cair pela gente abaixo. Era assim que eram as coisas. No verão trabalhava ali no forno. Também olhava pelos meus irmãos pequenos e tinha que fazer toda a lida da casa. Fui sempre muito afortunada com o trabalho. [Diz, em tom irónico.]

– Nunca se lembram de brincar?

Avó: ‘Tá bem, ’tá. À escola também nunca fui. Nunca soube ler nem escrever. Só sei fazer o meu nome. Quer dizer, conheço as letras, mas não sou capaz de as juntar. Só tive uma boneca de trapos que eu fiz. Mas nem tempo para brincar com ela tive. Ficava logo com os meus irmãos que tinham dias, que a minha mãe ia vender para a praça.

– Mas a avó tirou a carta sem saber ler nem escrever…

Avô: Foi à prova oral.

Avó: Enquanto os outros iam lá escrever, eu tinha que falar. Agora, acho que já não fazem isso. Aprendi o código de memória. À condução fui duas vezes, que eu à primeira fiz uma aselhice. E eu vi logo que a fiz. Já tinha 51 anos quando tirei a carta e conduzi quase até aos 70 anos. Tirei a carta porque precisávamos de ir vender para o mercado.

– Juntaram-se antes ou depois da tropa?

Avó: Foi depois.

– Como se conheceram?

Avó: [Risos.] Então, a gente éramos vizinhos. Eu morava ali [aponta para a casa ao lado] e ele lá em baixo no casal. Conhecíamos-nos desde pequenos. Mas só nos juntámos um ano depois de ele vir da tropa, quando eu tinha 18 anos.

– E quando começaram a namorar?

Avó: [Risos.] Antes de ele ir para a tropa já gostávamos um do outro. Já nos encontrávamos, já andávamos a piscar o olho um ao outro, já namorávamos. Pouco, mas já. Namorámos a sério depois de estar juntos.

– E casaram antes ou depois?

Avó: Casámos depois de estar juntos. Quando baptizámos o tio Zé é que casámos. Já tinha a Maria e o Zé, quando a gente se casou pela igreja.

– E foi o avô que pediu a avó em casamento?

Avó: [Risos.] Ninguém pediu ninguém em casamento. Marcámos a data e pronto. A minha mãe ainda teve que ir assinar por mim porque no bilhete de identidade eu era menor. Só fui registada já tinha 3 anos de idade.

– Como foi a festa?

Avó: [Risos] A nossa foi muito pobrezinha. Bem, ainda houve um peru e um carneiro que a tua mãe deu. [Olha para o avô.] A tua mãe deu-te um carneiro [o avô acena com a cabeça que sim] e nós tínhamos um peru. Foi a carne do nosso casamento. Os convidados eram poucos. Nem foi toda a família.

– E o vestido avó?

Avó: ‘Tá bem, ’tá. Era uma saia de fazenda aos quadrados e uma blusa às flores e um casaquinho branco que a minha sogra me emprestou. [Risos.] E viemos de botins até cá cima, porque desde lá de baixo do Carriço era só lama. Só depois é que calcei os sapatos para entrar na igreja. Não me lembro se eram sapatos ou sandálias. O avô depois é que começou a fazer o meu calçado.

– Avô, lembra-se dos primeiros sapatos que fez para a avó?

Avô: Foram umas sandálias.

Avó: A primeira vez que fui às Caldas [à cidade] levei uns sapatos emprestados da minha sogra. Andávamos quase sempre de chinelos e tínhamos um calçado mais grosso para ir para a fazenda.

– E, depois de se juntarem, a avó trabalhou na agricultura com o avô?

Avô: É óbvio. Eu tinha sempre que fazer.

Avó: Sim, toda a vida trabalhámos na agricultura. Quando ele era sapateiro já trabalhava também na agricultura. Ele ia trabalhar 2 ou 3 dias fora e depois, ao fim de semana, tínhamos que fazer o nosso trabalho. Já tínhamos uma fazenda que ele tinha herdado do pai dele. Também íamos pulverizar para a avó Maurícia e fazer outros trabalhos para ela. Íamos de graça, para ela olhar pelos miúdos durante a semana. Ela ficava com os miúdos para eu ir para a fazenda mais ele. Um ainda ia mais a gente, a cavalo da burra. Agora todos nunca levei. Às vezes ainda nos dava o almoço, outras vezes nem isso.

Avô: Trabalhámos muito para ter o que temos.

– A avó teve 5 filhos. O primeiro teve com quantos anos?

Avó: Com 19 anos. Tive 5 filhos, um já faleceu, e tenho 14 netos e 11 bisnetos. Há netos e bisnetos que não conheço. O neto já vai fazer 17 anos.

– Pois, porque vocês têm dois filhos emigrados no Canadá. A filha mais velha e o filho mais novo… Como lidam com isso?

Avó: Ela já lá está há pelo menos 30 anos. Quem é que fica bem com os filhos fora? Temos sempre muitas saudades deles. Volta na volta falamos ao telefone. Não se pode fazer nada. É lá que eles têm a vida deles.

Avô: Temos saudades…

– Qual o segredo para um casamento durar tantos anos?

Avó: Não responder ao outro. Nunca ouviste dizer que o calado vence tudo?

Avô: Aturá-la! [Sorri.]

Avó: Eu é que o aturo a ele. Não é ele a mim. [Risos.] Já viste aos anos que ando a lidar com ele, depois de ter esta doença, de ficar como está?

– O avô já teve vários Avc’s…

Avô: Três.

Avó: No último é que ficou paralisado na perna e no braço.

– Qual foi o momento mais difícil das vossas vidas?

Avó: Não tem sido nenhum fácil. São tantos que nem sei dizer. [Pausa para pensar.] A gente, às vezes, andar a trabalhar e não ter dinheiro para se governar.

Avô: Só começamos a ter dinheiro quando começamos a trabalhar nos tomatais. Foi nessa altura que começamos a construir esta casa. Era o Armando [o filho mais novo] pequenino. Andavam aqui os pedreiros sozinhos e nós andávamos a trabalhar nos tomatais. Só os víamos à noite. Muitos dias nem os víamos.

Avó: Trabalhámos nos tomatais, mas também tínhamos feijão-verde, ervilhas, batatas… Mas só começamos a juntar dinheiro depois de eu estar reformada. Antes disso, o dinheiro era sempre à conta. Andava sempre a tirar dinheiro da reforma dele para investir nas fazendas para comprar material para a pulveriza, árvores para plantar… Enquanto não deixámos o amanho, nunca havia dinheiro.

– A reforma dá para vocês viverem?

Avó: Poupadinha tem que dar.

– Vocês já perderam um filho [o meu pai]…

Avó: Nenhum pai gosta de perder um filho. [Emociona-se.] Também sentimos muito quando morreu o Sérgio [que era casado com uma neta]. Não me custou menos do que no dia em que perdemos o teu pai. Era como se fosse um neto verdadeiro.

– Se pudesse dizer algo ao meu pai… Se ele pudesse ouvir… O que lhe diria?

Avó: Gostava que ele tivesse tido uma vida mais fácil. Também nunca teve uma vida boa. Que tivesse tido dinheiro para fazer uma casa ou comprar…

– E o avô?

Avô: Eu não sei… [Fica introspectivo.]

– Qual foi o momento mais difícil para si, avô?

Avô: Foi esta doença. Esta doença do coração, o Avc.

Avó: Ele foi reformado por causa da doença do coração.

– E a avó teve alguma doença grave?

Avó: Não. Só tive no hospital quando me operaram ao joelho. Nunca tinha estado no hospital. Todos os filhos nasceram em casa. A minha sogra ou a minha cunhada é que faziam os partos. Correu tudo bem. Só tive mais tempo para ter o Zé, o resto correu bem. Diz que é a dor dos partos, no segundo filho. Teve uns três dias para nascer. E, se a avô Maurícia não vai lá e procurar o jeito para ele sair, morria eu e ele. Ele estava atravessado. Ela esfregou-me a barriga com azeite quente e procurou o jeito e ele saiu. [Pausa para pensar.] A Ilda mais um pouco nascia à borda do rio. Tinha ido lavar umas sacas do trigo, que tinha sido vendido, ao rio. E tinha aproveitado para lavar uma maxinha [molhe] de roupa e vinha para cima com a bacia da roupa. As sacas ficaram lá. Já não era capaz com elas. E a meio do caminho deu-me as dores. Ainda me deitei umas poucas vezes no caminho. Foi chegar a casa, atravessar a casa até ao quarto e ela nasceu logo.

– Era trabalhar até à última…

Avó: Era sempre até nascer. No dia antes de nascer o teu pai, andei a plantar hortos na fidalga.

– Se pudessem voltar atrás, mudavam alguma coisa da vossa vida?

Avô: Gozar mais a vida.

Avó: Se a gente pudesse sair de casa e dar uns passeios. Nunca demos um passeio como deve ser. De longe em longe, íamos a uma excursão. Agora, já há mais de 10 anos que a gente não sai daqui para lado nenhum. Só vamos ao médico, ao supermercado e pouco mais.

– Desses passeios qual gostaram mais?

Avó: Nós gostámos muito de ir ao Douro. Foi dos últimos sítios que visitámos.

– Qual a vossa comida preferida?

Avô: É toda!

Avó: Comemos de tudo. Somos boa boca. Ele gosta muito de cozido à portuguesa.

Avô: Ainda agora comi um comer que eu gosto muito. Frango guisado.

– O que gostam de ver na televisão?

Avó: Um concurso, uma telenovela, programas de canções, futebol. Não sou de clube nenhum, mas gosto de ver a bola.

Avô: Eu gosto de ver a bola também.

Avó: E a tourada quando dá.

– A avó sabe fazer costura e renda. Aprendeu sozinha?

Avó: Aprendi com os desenhos das revistas. Acho que sou inteligente. Também sei fazer contas de cabeça. Ainda vou ao supermercado sem levar lista. Sou eu que trato das contas cá em casa.

– O avô ainda gosta da avó?

Avó: Que remédio tem ele. [Risos]

Avô: Gosto!

– Qual foi o melhor presente que o avô lhe deu, avó?

Avó: Foram estes brincos de ouro. No ano em que tirei a carta de condução.

– E a avó a ele?

Avó: Comprava-lhe roupa todos os anos pelo Natal…

– Qual o momento mais feliz das vossas vidas?

Avó: Gostei muito de ir aos casamentos das netas.

Avô: Era ter saúde.

– Uma coisa que viveu, avô…

Avô: Já não me lembro. A minha cabeça já não dá para pensar.

– Acham que fizeram um bom trabalho a educar os vossos filhos?

Avó: Da minha parte, acho que sim. Ajudei-os a criar. Foram à escola…

– Têm alguma mensagem que gostassem de deixar aos filhos e aos netos?

Avó: Que eles tenham muita saúde e que sejam felizes.

Avô: Que tenham saúde é o mais importante.

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CARINA MAURÍCIO, a fotógrafa
É budista e conservadora-restauradora. É de riso e choro fáceis. Tem tanto de sensível, quanto de corajosa e lutadora. Adora fotografar, jogar ténis e viajar. Viciada em comida, é fã de comida italiana. Gosta de dormir, de café, de chocolate. Dançar? Pode ser a noite toda. Mas também gosta de ficar na ronha, em casa, entre filmes e pipocas. Adora o som da chuva a cair no inverno e o som do mar em dias de verão. Campos floridos enchem-lhe o olhar, assim como as cores das folhas do outono. Apaixona-se facilmente e é uma apaixonada pela vida. Uma geminiana pura.