O que é viver de verdade, Afonso?

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Fotografia © Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

— Tenho medo de chegar ao fim da minha vida sem ter vivido de verdade. – Diz-lhe, enquanto moravam no abraço um do outro naquele fim de tarde de agosto.

— O que é viver de verdade, Afonso?

— É não ter vida suficiente para todos os meus sonhos. É sentir que o tempo me foge a uma velocidade assustadora e que, por mais que corra, a vida é uma maratona em que o tempo será sempre o vencedor. – Faz uma pausa — Sabes, Joana, eu quero chegar ao fim da minha vida e sentir que, apesar de não feito o mundo inteiro que cabia nos meus sonhos, fiz tudo o que o tempo me permitiu.

— E se morresses amanhã? Terias vivido de verdade?

Sem hesitar, responde:

— Não!

— Porquê?

— Ora, porque sempre preferi ficar confortavelmente no meu canto a ir desconfortavelmente onde sempre sonhei ir. Sempre preferi o fácil ao difícil. Sempre virei as costas ao invés de me sentar e falar.

— E se pudesses voltar atrás? Mudarias tudo isso? As tuas escolhas seriam todas diferentes?

Afonso fica pensativo. Minutos depois, interrompe o silêncio:

— Talvez sim. Talvez não. Talvez tenham sido essas escolhas que me permitem estar, hoje, a pensar nisto, neste viver de verdade que anseio. Não sei.

— Talvez sejam mesmo essas escolhas que te permitem, agora, ter a noção de que a vida tem de ser vivida assim. Se não fosse assim, talvez essa preocupação nunca te pesasse no coração.

— Mas que faço eu agora? Sabes bem que o meu trabalho não me realiza, que só o mantenho pela estabilidade que me dá. Sabes bem que há muito que não tenho alegria em mim para além dos momentos em que somos os dois. E este vazio consome-me cada vez mais espaço

— Pensa no agora.

Sem perceber o que ela quis dizer, pergunta-lhe:

— Como assim, no «agora»?

Ela agarra-lhe firmemente a mão e diz-lhe:

— Pensa no que realmente podes mudar agora, neste momento. De nada te serve seres refém do passado porque ele é isso mesmo: um passado. Pensa no momento em que realmente podes fazer a diferença: o agora. O que ficou foi bom pelo que te ensinou e é só isso que deves preservar. O resto não importa.

— Mas eu tenho medo, Joana.

— Medo de quê?

— Medo da instabilidade. Medo de fracassar. Medo de sonhar alto demais. Medo de não escolher o caminho correto. Medo de que não dê certo.

— E o medo de chegares ao fim da vida sem teres vivido de verdade? Esse medo não é superior a todos os outros? Não é esse o medo que mais te consome? Não é esse medo que mais te perturba? Não é esse medo que ocupa mais espaço no teu coração?

Hesitante, responde:

— Sim, acho que sim.

— Então, tens aí a tua resposta. A tua felicidade está à distância da tua coragem para perseguir os teus sonhos. Essa vida, vivida de verdade, que tens medo de não viver, está à distância dessa coragem. – Faz uma pausa. Olha-o fixamente — Tu sabes o que queres, não sabes?

— Sei! E também sei o que não quero. – Responde com prontidão.

— Então, precisas de dar o primeiro passo. O caminho aparece a seguir. Se for em linha reta, melhor. Se tiver curvas e contracurvas será um teste à tua resiliência.

O Afonso fica em silêncio, como se ali mesmo ponderasse o resto da sua vida. No meio do abraço onde sempre permaneceram, diz-lhe:

— Então, promete-me apenas uma coisa.

— O quê?

— Prometes-me que, se cair, é nos teus braços que aterro?

Ela sorri. Sai, delicadamente, daquele abraço, agarra-lhe as mãos e diz-lhe:

— Para que raio me servem os braços se não for para te ampararem as quedas?

E voltam ao abraço. E ficam na mais bonita morada daquele amor.

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RAQUEL FERREIRA, a engenheira
É de uma aldeia perdida no norte do país e ambiciona ser mestre em Engenharia Civil. No percurso, apaixonou-se pelas palavras e escreve. Sobre tudo. Sobre nada. Ainda não é tudo o que quer ser, mas luta todos os dias por isso.