Hoje, não quero viver sem ti

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Fotografia © Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Hoje, acordaste em mim. Irrequieto e barulhento, afetaste-me a serenidade da dormência que o meu corpo exige. Quando te tentei afastar, com um abrir de olhos abrupto, puxaste-me novamente e afagaste-me a fronte. Fechei-os devagar e deixei-me ir só um bocadinho.

Vejo-te as rugas à volta da boca e a marca do tempo na testa larga, que me lembra a severidade dos nossos dias juntos. Sinto-te o cheiro e abraço-te.

Agora, sou eu que não quero sair.

A realidade aborrece-me. Suspiro zangada e volto-me para o outro lado dos lençóis enrodilhados. Não gostas da distração e começas a fugir. Pegas no teu SG Gigante e no isqueiro com o desenho de uma senhora com demasiado calor e afastas-te. Não me dizes adeus, nem me beijas em despedida. É um até já forçado que perpetuas. Tem sido assim nas últimas semanas. Assaltas-me o sono, ajudas-me a derramar as lágrimas que guardei demasiado fundo e desvaneceste-te nas ruas cheias da minha memória de menina.

Mas, hoje, não.

Hoje, não quero viver sem ti.

Sento-me na cadeira e procuro a luz do processador de texto. Vasculho pastas freneticamente, apalpo ritmos. Vou ouvir-te na voz de outros. Vou ressuscitar-te devagar e dolorosamente.

Preciso de ti.

Evoco a tua imagem. Passaram-se apenas uns escassos minutos, mas já não te consigo definir tão bem. Escrevo com rapidez, respiro fundo e despojo-me um bocadinho mais do meu verdadeiro ser. Aqui estou eu, sem filtros, como tu me preferes. Verdadeira e crua. Exageradamente transparente, homenageando a mulher que me ensinaste a ser.

As letras ganham força, ocupam espaço, enchem-me a alma da calma que preciso para te amar mais um pouco sem tanta distância a separar-nos. No meio das frases, das metáforas, das variações verbais, da falta de sentido que só esta paixão me pode dar, tu voltas à vida. E já te voltei a sentir o cheiro, a decorar as rugas, a sentir a cor dessa pele morena que guardaste apenas para mais um afortunado.

Hoje, revoltei-me contra a tua morte. O tu não estares aqui para me abraçares de manhã.

Hoje, revoltei-me contra a tua pausa para o cigarro que nunca tem retorno.

Hoje, no meio da minha escrita, tu ressuscitas e vives em mim.

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MIRIAM AFONSO, a Mi
Escorpiã até ao tutano. Bem disposta e de sorriso fácil. Apaixonada pela vida e pelos outros. Prefere frio ao calor, chocolates a gomas e livros a sapatos. «Os Maias» são um bocadinho como a bíblia lá por casa e «O Principezinho» povoa cada espaço vazio nas estantes. É vizinha de um dos bairros mais bonitos do mundo - o do Amor - e escreve para se encontrar.