São momentos em que dói

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Fotografia © Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Há momentos em que o mundo se desmorona bem à nossa frente, aos nossos olhos. Momentos em que nos roubam o chão e nos obrigam a cair sem paraquedas. Momentos em que nos perguntamos para que servimos, que raio de propósito é afinal o nosso. Momentos em que nos sentimos verdadeiros sacos de pancada à mercê de um mundo ao qual acreditamos não ter feito tanto mal assim. Momentos em que o vazio nos ocupa tanto espaço, numa contradição que nos assola a alma. Momentos em que somos um ponto de interrogação gigante, em que nos enchemos de questões e somos mais incertezas do que verdades absolutas. Momentos em que nos chove constantemente dos olhos, em que o sorriso teima em não se moldar, em que não há calor no nosso corpo, não há energia, não há paixão. Momentos em que nos sentimos sozinhos mesmo rodeados de gente numa solidão que nos corrói as estranhas.

Dói. São momentos em que dói. Dói muito no coração. Um coração que nunca está preparado para se sentir assim: triste. Um coração que nunca está preparado para praticar a arte do desapego, para deixar ir o que já não nos acrescenta, para se livrar do peso tremendamente pesado do passado, para esvaziar uma bagagem com que, muitas vezes, já não pudemos.

E é nestes momentos, em que dói, que precisamos de ouvir a voz do coração que nos diz que o melhor está sempre para vir e que é nos momentos em que caímos que mais nos elevamos interiormente. Uma voz que nos quer dizer para sentirmos a nossa dor ao nosso ritmo, para a resolvermos no nosso tempo e que, quando resolvida, se deve guardar num cantinho especial do coração: o das aprendizagens que ficam para a vida.

Dói, mas, às vezes, tem mesmo de doer. Para nos fortalecer. Para desenvolvermos capacidades adormecidas em nós. Para percebermos até onde podemos ir. Para percebermos que somos tão mais do que aquilo que julgámos. Dói, mas, às vezes, tem mesmo de doer. Para que te lembres sempre que é por, um dia, ter doído tanto que hoje sabes tanto. Da vida. De ti.

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RAQUEL FERREIRA, a engenheira
É de uma aldeia perdida no norte do país e ambiciona ser mestre em Engenharia Civil. No percurso, apaixonou-se pelas palavras e escreve. Sobre tudo. Sobre nada. Ainda não é tudo o que quer ser, mas luta todos os dias por isso.