Tudo é energia

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Fotografia © Tiko Giorgadze | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Dizem que somos energia em manifestação. Que somos pura energia. Que tudo é energia. Dizem que atraímos o que nos acontece, que a nossa realidade está em sintonia com os nossos pensamentos e com as nossas vibrações. Que nos libertamos ou nos condicionamos com base nos mesmos.

Já sentimos arrepios em pleno dia de calor, como se algo ruim estivesse a passar por perto. Já entramos numa sala em que o ambiente era pesado, como se embatêssemos numa parede. Não tenho doutoramento em física quântica, nem sou neurocientista, mas a verdade é que já todos o experienciámos de várias formas. Se a interpretação que fazemos disso é linear ou mais rebuscada, é com cada um.

Quando estamos numa espiral de pensamentos negativos, de queixumes e lamentos, quando só vemos o lado negro das coisas, quando pomos “ses” e “mas” a tudo, parece que tudo nos acontece. Gera-se um efeito bola de neve, alimentado por essas energias e vibrações, como se desencadeássemos uma sucessão de eventos menos bons, inconscientemente.

É quando emanamos energia positiva, que nos libertamos, que nos sentimos melhor com a vida e connosco, que atraímos o que de bom nos acontece. Se não resulta é porque nos sabotamos, porque no fundo não acreditamos no que dizemos a nós próprios.

Na realidade, parece ser mais fácil render-mo-nos às más energias e deixá-las fluir, do que às boas. Será por serem essas, as energias que dominam o mundo e que por isso fluem melhor? Ou será porque tudo o que é bom é mais difícil de alcançar ou essa crença foi–nos incutida pela negatividade que domina? Porque somos céticos à positividade? Quem nos programou assim?

Acho difícil de crer que somos imunes as energias de quem nos rodeia, que só dependemos exclusivamente da nossa. Basta olhar para o mundo em que vivemos. Não será que a energia que nos é dirigida também não nos influencia? Quando uma mãe, na plenitude do seu amor, deseja o melhor ao seu filho, ou quando alguém, no pico da sua raiva, deseja a outro o pior. Como é que isso não nos pode afetar?

Há pessoas que emanam luz e outras que a sugam. Há pessoas cuja presença basta para nos deitar abaixo e outras para nos levantar.

Existem pessoas do bem, que espalham o conforto e paz por onde passam. Que trazem a leveza consigo e afugentam as sombras que estejam por perto. Seres que plantam um sorriso no nosso rosto e a esperança no coração. Humanos, imperfeitos, mas perfeitos para ter por perto. Seres luminosos que deixam um rasto de luz atrás de si, que nos fazem sentir um pouco melhor por pior que estejamos.

Existem pessoas que não suportam a luz nem o brilho alheio, que vivem da miséria que plantam em seu redor e alimentam-se dela. Há quem só sinta prazer com o mal dos outros, que tudo faça para levá-los para o fundo do poço onde vivem. Seres que, apesar de vivos, nos congelam a alma. Cujo sangue é frio que nem a escuridão e tudo fazem para arrastar quem os rodeia para dentro desse negro manto. Pessoas, cuja energia que libertam, fazem-te encolher dentro de ti. Destas, queremos distância.

Mas o mundo é pequeno e não os podemos evitar a todos.  Não dá para fugir. Será que temos forma de rechaçar tal espécie hedionda das nossas vidas? Quanta luz será suficiente para os afugentar? Será possível erguer um escudo protector que os atinja sempre que cheguem perto? Era tão bom que fosse.

Seremos nós pura energia em manifestação? Será o nosso mundo a soma de todas as nossas vibrações? Filosofias baratas ou não, cada um sabe o que vivenciou nesta vida. Cada um, que tire as suas próprias conclusões.

A negatividade adoece. O positivismo cura.

Nem tudo é físico, mas tudo é física.

E isto é o que sei.

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ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.