À procura de coragem

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Fotografia © Tamara Bellis | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Quando ali chegava, o azul dominava-a. Sentava-se no chão que cedia o seu melhor tapete para deixar confortável a mulher triste em que se tornara e deixava-se render ao suave afago do vento, esboçando um ténue sorriso despenteado. Chegava ferida, procurando na visão do mar o remédio para cicatrizar o que em si ardia de dor. Distraída pelos sentidos que a paisagem despertava, a tormenta que em si vivia, aquietava-se. Aquele lugar era o seu porto de abrigo, daí o alívio que sentia, logo que confirmava a imutabilidade aparente, desde a última vez que ali estivera. Era um dos lugares mais bonitos, entre outros tantos que conhecera nos seus trinta e oito anos de vida.

Joana gostava de se sentar no chão. Não porque sentisse o peso dos anos, mas porque os últimos acontecimentos na sua vida a deixavam privada do fulgor dos tempos em que tudo era uma possibilidade alegre de concretizar. A vida parecia ter-se zangado, definitivamente, consigo. Sentia-se sem forças para ripostar. Deixava acontecer. E, de facto, algo acontecia, quando ela julgava que era impossível a situação degradar-se ainda mais. De cada vez, os efeitos era mais devastadores. O seu casamento era um laço desfeito e esfarrapado. Desacreditada de si mesmo, vivia errante sem tomar uma atitude que lhe devolvesse a paz que o seu corpo e o seu espírito reclamavam.

Já ali estivera tantas vezes. E chegava sempre em pedaços. O vento tomava conta do seu corpo, repondo no devido lugar o que o delator separara. Desenganem-se os que creem que o vento transporta a desordem. Joana vivia anestesiada pela dor e pela angústia permanentes, que, sem pejo, roubavam o brilho e a cor ao seu rosto. O vento serenava a exaltação que dominava aquela mulher, que não se cansava de o procurar. O mar, na sua calmaria acutilante, acreditava nela. A Joana sentia-o. O mar deixava-se olhar nos olhos e o coração de Joana enchia-se de esperança, destemido da ondulação que corria para si. Quando as ondas altas desesperavam e caíam num grito doloroso e rouco, a areia estendia os braços e com ternura recebia as ondas, desfalecidas pelo esforço, que celebravam aquele amparo num sonoro farfalhar, tal folhas que se agitam ao vento.

Ali, o tempo era caridoso com a mulher que se sentia asfixiar, na ausência de uma atitude. Logo que recuperava a respiração, embalada pela ondulação que não roubava o equilíbrio ao mar imenso, os pensamentos fluíam e a Joana acreditava. Acreditava que, um dia, a coragem seria sua e o sorriso, tão violentamente e egoisticamente suprimido, lhe seria devolvido.

Joana sentia a culpa do amor longínquo que viera armadilhado para a trair com a cobardia e a deslealdade. A Joana mortificava-se com o destino. Insurgia-se, porque o seu amor já não sonhava. Insurgia-se, porque o seu amor lhe subtraia, sem pudor, o respeito. Insurgia-se porque o seu amor a defraudava, impune. Insurgia-se quando o seu amor a culpava dos infortúnios de uma vida. Insurgia-se com o desprezo com que o seu amor impregnava os seus sentimentos mais íntimos. Não lhe restava mais nada, para além do desalento que a comprimia contra o chão. Ali, defronte ao mar, as ondas agarravam carinhosamente no seu queixo, forçando-a a levantar o rosto para, como as ondas, chegar mais alto e deixar-se cair para descansar do combate. A areia estava lá para amparar. A fé renascia no íntimo de Joana. A natureza era sábia. Não havia porque ter medo do combate.

Enfrentar com coragem a escalada de se erguer, num esforço continuado de contrariar a gravidade que teima em fazer cair, permitira às ondas descobrir a sua maleabilidade e a sua beleza. A água, imprevisivelmente, dobrara-se em voltas e reviravoltas. A beleza das águas calmas não se comparava à beleza das ondas. As águas curvavam-se, sem que tal postura denotasse a submissão aos caprichos de uma força invisível e incontornável. Elevavam-se até à exaustão, firmes do seu propósito. Ao atingir o pico da onda, a sua magnificência evidenciava-se de forma inequívoca. A fé relembrava-lhes que a doçura da areia amparar-lhas-iam no final da sua contenda. A segurança renascia àquela altura destituída de medos infundados. Quando se deixavam cair, faziam-no-lo sedutoramente, arrebatadas consigo mesmas e deleitadas com a frescura da água pulverizada sobre o seu dorso ondulante e, inegavelmente, elegante. Tinham os olhos das multidões colocados sobre si, mas nada disso as perturbava. Aspiravam alcançar a praia.

Naquele lugar, Joana viu renascer em si o que há muito tempo deixara esquecido num cantinho, empoeirado e esquecido. Chorou. Compulsivamente. Acarinhou a dor. Ergueu-a com dignidade. Olhou lá do alto. Permitiu-se sentir o orgulho pelas batalhas travadas e que a haviam levado até junto daquele mar imenso. Olhou em frente. Ousou desafiar o que não conhecia. Cresceu um pouco mais. Sorriu com o atrevimento. Curvou-se, grata com os ventos que a acolheram e acarinharam. Lançou-se, com a fé que um dia esquecera, e envaideceu-se com a silhueta que não escondeu. Gargalhou com as voltas e reviravoltas. Pousou, resplandecente. O espaço abria-se à sua frente. Sorriu. E prosseguiu. Corajosa.

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ANA SANTOS, a gaivota
A vida fez com que ousasse pegar numa caneta e num caderno e nele viajar pelo mundo das palavras escritas sonhadas. Primeiro a medo, depois com menos receio, deu por si a relembrar-se do prazer que já em criança sentia pela escrita. Com uma licenciatura em Físico Química, não causará estranheza que a natureza seja o seu porto de abrigo. Adora estar em contacto com a natureza e é nela que encontra algumas respostas para os seus desassossegos, sem se sentir culpada, mas sempre abraçada.