Um rio de memórias

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Fotografia © Miszczuk Sylwia | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

O silêncio pesava na atmosfera da casa. A cada passo que dava o ar ficava mais denso. Parou na porta daquele quarto, mas foi incapaz de o abrir. O silêncio era ensurdecedor. Gritava-lhe aos ouvidos. Hesitou. «Aquele quarto, aquele quarto não». Voltou para trás, começou a descer as escadas e parou a meio. Ficou ali, imóvel. Um arrepio percorreu-lhe a espinha. Começou a tremer.

Sem saber mais o que fazer, sentou-se num degrau. Encolheu-se e abraçou-se. Não parava de tremer. Começou a balançar-se. Estava a sentir-se gelada em pleno dia de verão. Não podia ficar ali. Levantou-se. Sentia-se estonteada e com as pernas bambas. Pudera. Os nervos tomaram posse dela e nunca mais a haviam abandonado. Há dias que mal comia.

Quando chegou ao hall de entrada, abriu a porta e foi logo envolvida pelo calor da rua. Respirou profundamente e saiu. Começou a andar rua abaixo. Desorientada e com o olhar apático. Sem qualquer comando da sua mente, pelo menos consciente, as pernas conduziram-na.

Quando acordou da sua letargia, estava à beira rio. Aquele lugar trazia-lhe tão boas memórias. Tantos passeios ali fizeram. Tanta felicidade o rio presenciara. As águas, testemunhas de tanto, corriam até à foz e levavam essas recordações consigo. Imagens que não se repetiriam nunca mais. Voltou a tremer. Com medo de desfalecer ali, apoiou-se numa árvore e sentou-se. Estava tão perto da água que esta quase lhe tocava os pés.

Os dias haviam passado como a corrente daquele rio. A correr.

Fora tão feliz. Foram tão felizes. As lágrimas jorraram-lhe olhos abaixo, desenfreadas. Pareciam querer juntar-se às águas do rio. A dor era tão grande, tão dilacerante. Apetecia-lhe mergulhar ali e deixar-se ir. Mas sabia que isso não era a solução. Os seus filhos precisavam dela. Estavam há dias em casa dos avós e pediam-lhe para voltar. Mas ela não queria que a vissem assim, tinha que ser forte por eles. Tinha que ganhar forças. E, para isso, precisava de fazer algo para o qual ainda não tivera coragem. Entrar naquele quarto. Esse era o passo maior que precisava dar para seguir o seu caminho ao lado dos seus filhos.

Entretanto, o sol já se ponha. Mergulhada nos seus pensamentos, nem dera pelo tempo passar. Tinha que voltar, deixara a porta destrancada. Olhou-se ao rio. Aquele espelho de água refletiu o seu rosto cansado e derrotado. Assustou-se com a sua própria imagem. Tinha que retomar as rédeas da sua vida.

Mais tarde, de volta a casa, voltou a ver-se perante aquela porta. «Coragem. Tem coragem. Pelos teus filhos. Faz isto por eles. Precisam de ti.» Repetiu várias vezes as mesmas frases até finalmente rodar a maçaneta e entrar.

Estava tudo como ele deixara. O escritório era grande e tinha vista para o rio lá em baixo. Quase a poderia observar dali. Se ele ali estivesse. Passava horas a fio aqui. Colecionava réplicas de navios de todo o tipo. A parede do lado direito parecia um expositor de museu. Já não tinha onde mais arrumar. Outra das paredes estava coberta de livros, muitos deles técnicos. Mas tinha uma coleção invejável de banda desenhada, super-heróis desenhados para salvar o mundo do mal. Mas a ele não haviam salvo. A doença não tivera piedade e, num ápice, devorou-lhe o corpo até não lhe sobrar forças nem para respirar. Não houvera qualquer sinal. Fora tudo tão rápido.

Aquele quarto ainda tinha o seu cheiro. O seu perfume estava entranhado nas coisas que tocara. Inspirou. Já era de noite, as janelas estavam fechadas, mas sentiu uma brisa quente a acariciar-lhe a pele. De alguma forma, ele estava ali. Mesmo que fosse só no seu coração.

Arregaçou as mangas e começou a arrumar a papelada que estava espalhada sobre a enorme secretária, feita à medida de um sonhador. Nas costas da cadeira ainda estava um casaco. O pó amontoara-se. Depois que ele fora hospitalizado, ninguém entrara ali. Como se ao entrar estivessem a assumir a derrota. Ali, quem arrumava era ele. Não queria ninguém a mexer nas suas relíquias. Os filhos, dois rapazes de 5 e 8 anos, teriam ali um belo tesouro para manter-lhes viva a memória de um pai que partira demasiado cedo para lhes ensinar a velejar pelo mar ou a navegar pela vida.

Conseguia ainda ouvir as gargalhadas de pai e filhos a brincar aos piratas. De pala nos olhos, mancava, fazia voz rouca e, de espada na mão, ensinara-lhes muito. Desde o nome de oceanos aos pontos cardeais. Dava-lhes lições para a vida, onde a moral da história era sempre a de que, por pior que parecesse a tempestade, por mais que as velas soprassem e o barco balançasse, a seguir havia de vir o sol para guiá-los até o seu destino, ao seu porto seguro.

Assim esperava.

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ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.