Marrocos: um país de contrastes

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Fotografia © Carina Maurício | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Dia 1

Estamos em Fez, o primeiro destino desta viagem, a mais antiga das cidades imperiais de Marrocos.

O dia foi passado a explorar a cidade. Passeámos nos jardins, admirámos o Palácio Real, visitámos o mellah (bairro judeu) e sentimos a dinâmica dos souks. Nos souks, que mescla produtores e artesãos, encontra-se de tudo à venda: perfumes e produtos de beleza naturais, especiarias e frutos secos, artesanato em couro, cerâmica, pedra, madeira ou metal, tecidos, trajes e tapetes de todas as cores, legumes e frutas, animais, entre outros.

Fez – Medina – Tanneries Of Sidi Moussa | Fotografia © Carina Maurício – A minha Visão do Mundo e das Coisas

Explorámos a medina de Fez, a maior e mais habitada do mundo. Uma realidade distinta de tudo aquilo que eu conhecia. Labiríntica, colorida, vibrante, repleta de aromas, a transbordar vida. O traçado medieval ainda é bem visível nas ruas estreitas, onde convivem pessoas e animais, numa intensa agitação.

Admirámos a madraça Attarine, que serve de residência de estudantes, uma obra-prima de arte decorativa. Tipicamente marroquina, combina a madeira, o estuque, o mármore e o azulejo, num equilíbrio estético que prende o olhar.

Visitámos um curtume, conhecidos como tanneries, onde tratam, trabalham e tingem as peles, de forma artesanal. Visualmente, é um local muito interessante com vários tanques coloridos. Quanto ao olfato, é um pouco difícil de suportar, devido ao mau cheiro intenso que se faz sentir. Por isso, deram-nos hortelã para disfarçar o cheiro quando respiramos. Apesar disso, é uma experiência única a não perder.

Terminámos este dia intenso, que despertou todos os nossos sentidos, sentados na esplanada de uma praça, com um chá de hortelã e vista para a porta principal da medina.

Dia 2

A caminho de Merzouga, Oasis Ziz | Fotografia © Carina Maurício – A minha Visão do Mundo e das Coisas

Partimos de viagem, em direção ao deserto, divididos em dois jipes. Passámos pelo Parque Nacional de Ifrane, grande parte coberto pelos bosques de cedros do Atlas, passando depois numa zona com neve. Aproveitámos, claro, para tirar umas fotografias e brincar um pouco.

As zonas verdes vão ficando para trás e a paisagem começa a ser mais seca, ostentando apenas arbustos rasteiros. No horizonte, as montanhas do Alto Atlas, cobertas de neve.

Fomos observando pequenas aldeias na beira da estrada, alguns rebanhos aqui e ali e, de vez em quando, uma ou outra pessoa, que aparece do nada, a pé ou de burro.

Passámos ao lado da barragem Hassan-Addakhil e parámos num miradouro com vista para o vale de Ziz. Lá em baixo, observa-se uma extensa área de palmeiras a acompanhar os recortes das montanhas que ladeiam o vale, até se perderem de vista.

Seguimos de viagem até começarmos a avistar, ao fundo, as dunas de cor alaranjada Erg Chebbi, o maior conjunto de dunas de Marrocos. Sente-se aqui uma emoção por chegar ao deserto.

Chegámos, então, a Merzouga, uma pequena aldeia berbere no deserto do Saara. Chegámos aqui e sentimos o ar seco. O corpo pede mais água.

O nosso albergue ficava mesmo no sopé das dunas, com uma vista linda. Admirámos o pôr-do-sol no terraço, com umas cores incríveis.

Dia 3

Deserto Sahara | Fotografia © Carina Maurício – A minha Visão do Mundo e das Coisas

Partimos à descoberta da aldeia de Merzouga, para perceber como este povo vive em condições tão austeras como é o deserto. Vimos os poços de água e a forma como é distribuída para todos poderem regar as suas hortas.

Depois de almoçarmos uma deliciosa omelete berbere, que adorei, a tarde foi de convívio e descanso.

Já a poucas horas do pôr-do-sol, partimos então na caravana de dromedários, rumo ao acampamento berbere no deserto do Saara. Foi a primeira vez que andei de dromedário e foi uma experiência engraçada. Fomos agrupados em conjuntos de quatro dromedários cada, com um cameleiro à frente a guiar os mesmos. Foi um passeio tão lindo. Adorei ver as variações de cores da areia nas dunas, as sombras dos dromedários que eram desenhadas conforme a direção, os jogos de sombra e luz.

Deserto Sahara | Fotografia © Carina Maurício – A minha Visão do Mundo e das Coisas

Admirar o pôr-do-sol no deserto tem qualquer coisa de especial. Não sei explicar. Tem de se viver. Aliás estar ali naquele sítio onde impera o silêncio, onde não há nada para além das dunas, é mágico. É o poder finalmente descansar o corpo, repousar a alma, esvaziar a cabeça dos problemas do dia-a-dia.

A noite terminou, após o jantar delicioso preparado pelos berberes, à volta de uma fogueira. A beber vinho, a ouvir, a tocar e a dançar música berbere. Observámos as estrelas. O céu do deserto do Saara é incrível. E já muito tarde, quando os olhos não deram tréguas, dormi um pouco, antes de despertar para ver o nascer do sol.

Dia 4

Tamegroute | Fotografia © Carina Maurício – A minha Visão do Mundo e das Coisas

Assim que repusemos as energias com um banho e o pequeno-almoço, partimos de viagem. A primeira paragem foi em Alnif, para comprarmos o nosso almoço no mercado tradicional da aldeia.

A paragem para almoço foi numa casa familiar, numa aldeia pequena chamada Ait Ouazik, depois de percorrermos vários quilómetros numa hammada, uma paisagem desértica com rochas e cascalho solto.

Nesta casa, interagimos — ou tentámos, pela dificuldade de comunicação — com as mulheres e crianças. Os homens da casa deviam estar a trabalhar. Na sala, onde comemos, havia apenas uma mesa, uma televisão e tapetes onde nos sentamos. Gostei muito de podermos ter esta interação com as pessoas locais.

Continuámos a viagem pela estrada de terra ao longo da hammada, designada pelo guia de «estradão dos nómadas». É interessante ver a paisagem desenhada pelas rochas e planaltos, que pertencem ao Parque Natural Iriki.

Já em Tamegroute, antes do jantar, dei um passeio pela aldeia. De repente, estava rodeada de crianças, muitas crianças. Levaram-me a conhecer a escola onde iam ter aula, e quiseram que escrevesse o nome do Cristiano Rolando no quadro. Sim, elas dizem Rolando. Escrevi Ronaldo e ensinei-lhes a dizer bem. Também quiseram saber o meu nome. Fiquei com o e-mail do professor, a quem já enviei as fotografias que lhes tirei. Foi um momento único que me encheu o coração.

A noite terminou numa tenda gigante no albergue, com mais degustação de diferentes sabores ao jantar, e com uma festa proporcionada para nós, por gentes locais que tocaram e dançaram música berbere.

Dia 5

Tamegroute | Fotografia © Carina Maurício – A minha Visão do Mundo e das Coisas

Pela manhã, visitámos a aldeia de Tamegroute com um guia local, que nos levou a beber chá à sua casa nova, ainda em construção. Uma casa muito bonita, construída em adobe, uma mistura de terra e fibras vegetais, tal como a maioria das construções em Marrocos. É por isso que as casas apresentam os mesmos tons ocres da paisagem envolvente, ostentando apenas apontamentos de cor nas portas.

Fomos a uma olaria ver como fazem a cerâmica com métodos tradicionais e pintada à mão. Adorei conhecer a aldeia. Foi muito interessante ver e saber mais sobre como vivem as gentes locais.

De novo na estrada, parámos num miradouro com vista para o vale do Draa, ladeado por vários oásis, de palmeirais e hortas, ao longo de 200 quilómetros.

Próxima paragem foi Tamnougalt, situada no vale do Draa, onde subimos a uma torre em ruínas. Daqui, a vista é incrível sobre o vale verde, a contrastar com as casas e as montanhas circundantes de tons ocres e avermelhados.

Depois de recarregadas as baterias com um delicioso almoço com vista para o vale, fomos conhecer o Kasbah des Caids. Muito interessante ver os pormenores deste tipo de arquitetura, típica do sul de Marrocos. Seguimos de viagem, mas não sem, antes, nos refrescarmos no rio Draa.

Ait Benhaddou | Fotografia © Carina Maurício – A minha Visão do Mundo e das Coisas

Chegámos, então, a Ait Benhaddou, o destino final desse dia, onde jantámos uma deliciosa tagine. Terminei a noite com uma companheira do grupo, a fotografar as estrelas, com o ksar de Ait Benhaddou como pano de fundo.

Dia 6

Ait Benhaddou | Fotografia © Carina Maurício – A minha Visão do Mundo e das Coisas

Aproveitámos a manhã para uma caminhada improvisada ao longo do rio, deixando para trás a mítica cidade de Ait Ben Haddou. Foi aqui que vimos, pela primeira vez, um grupo de crianças, que nos acompanharam na visita à aldeia delas, situada mais à frente.

Mostraram-nos vários recantos da aldeia, inclusive convidaram-nos para beber chá nas suas casas. Crianças que oferecem o pouco que têm. E não foi preciso falar a mesma língua para receber olhares brilhantes, sorrisos felizes e gestos de carinho. Estas crianças, principalmente uma menina de nome Safa, ficaram-me no coração. A Safa olhava-me todo o tempo de forma ternurenta, dizia-me coisas que eu não percebia, mas com um sorriso sincero. Quis ir todo o tempo de mão dada comigo. A sua mão pequena e toda pintada de henna. Abraçou-me várias vezes, e o último abraço, o mais longo e mais apertado, deixou-me com o coração cheio e, ao mesmo tempo triste, por saber que muito provavelmente nunca mais a voltarei a ver.

Ait Benhaddou | Fotografia © Carina Maurício – A minha Visão do Mundo e das Coisas

Quando regressámos, fomos, então, explorar Ait Ben Haddou, património mundial da Unesco, um dos mais bem preservados ksars. Pela sua beleza e localização já foi cenário de vários filmes. Lá de cima, as vistas são incríveis.

De volta à estrada. A próxima paragem foi em Telouet, na casa do senhor Ibrahim, para almoçarmos um cuscuz preparado pela sua família. Houve tempo para degustar a comida, que estava muito saborosa, jogar à bola com as crianças e tirar fotografias, antes das despedidas para seguir de viagem.

Ao fim da tarde chegámos ao último destino da viagem.

Assim que descemos dos jipes, ouvimos, na mesquita ao fundo, o chamamento para a oração. O som propagou-se no ar e misturou-se com as buzinadelas e os motores do trânsito, com as pessoas a falar, os vendedores a gritar, as crianças a brincar no jardim e o trotear dos cavalos, para passeios nos seus coches. Esta confusão, que se fez sentir, anunciava a realidade: estamos em Marraquexe! Onde tudo acontece ao mesmo tempo. E, devo dizer, depois de toda a viagem, chegar a Marraquexe é um choque sensitivo.

O jantar foi nas barracas, de comida típica, da afamada praça Jemna el-Fna, que à noite se enche de vida. Esta é conhecida pelos espetáculos de saltimbancos, acrobatas, encantadores de serpentes, faquires, músicos, dançarinos. Esta realidade não me impressionou. Primeiro, pelo facto de qualquer coisa ser motivo para pedirem dinheiro e, depois, pela forma como exploram os animais.

Dia 7

Marraquexe – Jardim Majorelle | Fotografia © Carina Maurício – A minha Visão do Mundo e das Coisas

Começámos o dia com um passeio de bicicleta, no meio do caótico trânsito da cidade, até ao jardim Majorelle. O jardim Majorelle é lindo, e vale muito a visita pelo museu berbere, que aí se encontra localizado. Foi muito interessante condensar todo o conhecimento adquirido ao longo da viagem, e até saber um pouco mais sobre as vivências do povo berbere. Aborda de tudo um pouco e a coleção de joalharia é incrível.

Marraquexe – Maison de la Photographie | Fotografia © Carina Maurício – A minha Visão do Mundo e das Coisas

A tarde foi livre, mas, a conselho do guia, eu e outros colegas de viagem fomos visitar a Maison de la Photographie. Adorei. As fotografias, antigas e de excelente qualidade, representam, entre outros temas, retratos típicos, realidades e vivências dos marroquinos.

Terminei a tarde a deambular pela mesquita. Apesar do encanto que esta tem, saí de lá bastante desiludida com a postura dos marroquinos, que tentam enganar os turistas de qualquer forma. É uma pena…

Depois de fazer as malas, para a partida do dia seguinte, terminámos a noite no terraço do hotel. Com vista para a praça, e a envolvência do barulho e da música de fundo, os últimos dedos de conversa acompanhados de um copo de vinho. Diria até que assim, ao longe, a praça tem mais encanto.

Dia 8

Dia das despedidas. Dia da partida. Dia de assentar as ideias. Dia de reflectir sobre tudo o que se viveu durante a última semana. Uma semana intensa, cheia de novidades para os sentidos. Para o olhar, pelas paisagens diferentes e contrastantes. Para o olfacto, pelos cheiros dos mercados. Para o paladar, pelos sabores da cozinha marroquina. Para a audição, tanto pelo silêncio do deserto como pela música berbere. Para o tato, pelos abraços das crianças.

As paisagens contrastantes, que vão desde o deserto do Saara à neve das montanhas do Atlas, a herança cultural, a história, a gastronomia, a diversidade de povos e a sua identidade, as cores e os aromas, fazem de Marrocos um país único. Que vale a pena visitar.

Um agradecimento especial ao guia e ao grupo com quem partilhei toda esta experiência.

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CARINA MAURÍCIO, a fotógrafa
É budista e conservadora-restauradora. É de riso e choro fáceis. Tem tanto de sensível, quanto de corajosa e lutadora. Adora fotografar, jogar ténis e viajar. Viciada em comida, é fã de comida italiana. Gosta de dormir, de café, de chocolate. Dançar? Pode ser a noite toda. Mas também gosta de ficar na ronha, em casa, entre filmes e pipocas. Adora o som da chuva a cair no inverno e o som do mar em dias de verão. Campos floridos enchem-lhe o olhar, assim como as cores das folhas do outono. Apaixona-se facilmente e é uma apaixonada pela vida. Uma geminiana pura.