Música para o coração

272
726_AnaSantos2
Fotografia © Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Dó, ré, mi, fá, sol, lá, si, dó, …, dó, si, lá, sol, fá, mi, ré, dó, a menina trauteava da frente para trás, de trás para a frente para, de novo, repetir, sem nunca se enganar. As notas saltitavam com uma rapidez incrível da sua boca para o ar que, logo que as apanhava, divertido, as largava.

Sem demora, as notas lançavam-se em esvoaçantes incursões para lugares longínquos, de onde a menina já não era visível. Em euforia pelo espaço que, generosamente, abria alas para lhes dar passagem, as céleres notas atropelavam-se perdendo as posições que a menina lhes atribuíra. Estavam à toa, mas não tanto assim que se permitissem perderem-se umas das outras. A noção do valor que tinham não lhes roubava o bom senso. Se as notas se soltassem para se perderem, logo o mundo choraria, sem poder prestar honras, com a habitual execução, como pano de fundo, de uma peça musical severamente trágica, que assinalasse tão fatídico destino. As notas conheciam a influência que tinham sobre os mortais e o poder que exerciam sobre os seus estados de alma tão inconstantes.

Desde tempos remotos que a musicalidade fazia parte das suas vidas. Não era, por isso, seu desejo abandonar quem sempre lhes soubera dar tão imenso e sincero apreço. As notas desdobravam-se pelos mais variados géneros musicais, organizando-se para compor desde trechos eruditos até aos mais populares de composição simples e, distribuindo-se, elegantemente, ao longo de uma pauta. Os géneros musicais abundavam e cada um deles se empenhava em evoluir para melhor servir aqueles que não concebiam viver sem música.

Se as notas se perdessem, as partituras ficariam esvaídas da mais pura expressão sentida, num momento único e irrepetível, daquele que as escreveu. Se as notas se perdessem, deixar-se-ia de fazer história dos momentos de inspiração sublime dos que as uniram para se salvarem. Se as notas se perdessem, os instrumentos seriam silenciados porque as mãos não as encontrariam, lamentavelmente ausentes dos lugares que desde sempre lhes foram reservados. Se as notas se perdessem, os músicos baixariam os braços, cedendo à derrota do que era intransponível. Um mundo desprovido de musicalidade aprisionaria, em cada um, aquilo que de mais autêntico vive em si e que urge libertar para que a vida faça sentido. Libertar na expressão única da música é um momento de bem-aventurança e plenitude para o seu criador.

A música sabe como dominar as emoções com o seu poder vibratório e não julga nenhuma delas. Aceita-as e a todas embeleza com motivos dos mais variados gostos. Música para os ouvidos, para que a alma possa celebrar o que nasce, vive e morre em si. Celebrar musicalmente a verdade sobranceira de cada um, usando como pano de fundo as notas em desfile, desenhado e sonoro, daquilo que os sentidos se despem. Deixar vir a si a música, para aceitar com amor as emoções transmutadas, não declinando nenhuma delas; afinal, todas brotaram de uma nascente que é única em cada ser. Torná-las mais límpidas e integrar em si, sem mágoa. Porque a música é mágica.

A música é o ombro amigo dos sentimentos que despontam, quando a vida é vivida com transparência e verdade. Ouvi-la permite sentir e celebrar cada uma deles nas suas porções mais pequeninas e tirar de si um melhor entendimento, roubando o lugar à fria solidão. De outras vezes, é a voz que de corpo ausente diz o inconfessável, porque é tão demolidor reconhecê-lo em si. A música tem poderes esfíngicos, que é necessário preservar com respeito, e os músicos, seus fiéis depositários, disseminam todo o mistério do entendimento de que ela é capaz.

Quando a apatia e a desesperança invadem o corpo, a música é o alento que desperta para novas possibilidades. A esperança renasce nos silêncios interrompidos pelas notas que se erguem para que também as cabeças se ergam e os olhos voltem a brilhar.

A música tem o poder de enaltecer o que o coração cala. Só a música desperta o coração para que este se torne capaz de decifrar o que nele acontece, sem procurar subterfúgios que só distraem e nada oferecem. A música sabe como harmonizar as batidas de um coração em doloroso sobressalto, sem manipulações vãs. A música desperta no coração o que nele está tristemente ensombrado, em contração permanente, para numa transição musical o fazer soltar. Livre.

Quando a alegria é ruidosa, as notas musicais são a batuta que marca os compassos das batidas do coração para que a harmonia impere em tão grande festividade e se quebrem os elos que comprometem a sua espontaneidade. Quando a música eleva, a emoção fica em sintonia com as notas vibrantes e a vida faz-se fluída; ouvir a música desperta o poder interior de ser uma centelha de vida divina. A ligação harmónica, entre os sons vibrantes das notas executadas e o bater compassado do coração, é o mais eficaz desfibrilador. A vida sossega, pouco a pouco, e o tempo retira-se em surdina. O que fica materializa-se na forma serena de sentir, quando a música já não se ouve.

A música é uma viajante incansável. Desconhece fronteiras que lhe refreiem a vontade de partilhar com um coração aquilo que só ele é capaz de decifrar. Quando o encontro se dá, o mundo dilui-se na música e o coração compreende a grandeza do que em si vive, quando, atento à métrica do trecho musical, deixa soltar, livres, as preciosidades que nele habitam.

Todas as emoções e os sentimentos passam a ocupar o espaço livre por entre as notas da pauta, ciosos por unificar o que tão bem reconhecem. Quando o preenchimento é total, o coração transborda de felicidade pela homenagem que a música oferece, sem que palavra alguma perturbe aquele entendimento, tão para além da pauta escrita. As emoções reconhecem, como ninguém, o sentir do coração. Elas nasceram dele, num processo espontâneo que só alguns compreendem. Guardiãs de toda uma vida que em si palpita, sabem como reconhecer a música de uma vida que toque compassadamente e em sintonia com o que em si fervilha.

Nessa altura, a música executa os passes mágicos e a paz toma o lugar do que genuinamente foi sentido.

Comments

comments

PARTILHAR
Artigo anteriorO amor é assim
Próximo artigoMarrocos: um país de contrastes
ANA SANTOS, a gaivota
A vida fez com que ousasse pegar numa caneta e num caderno e nele viajar pelo mundo das palavras escritas sonhadas. Primeiro a medo, depois com menos receio, deu por si a relembrar-se do prazer que já em criança sentia pela escrita. Com uma licenciatura em Físico Química, não causará estranheza que a natureza seja o seu porto de abrigo. Adora estar em contacto com a natureza e é nela que encontra algumas respostas para os seus desassossegos, sem se sentir culpada, mas sempre abraçada.