Tinha tudo, mas faltava-lhe tudo – 4ª e última parte

818
Fotografia © Larm Rmah | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Larm Rmah | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Antes de leres este capítulo, relê o anterior aqui.

Continuaram à mesa, no mesmo silêncio de sempre. O silêncio que já conheciam de cor. De repente, o telemóvel dele toca e, após pedir licença, atende.

Pouco minutos depois, diz-lhe:

— Desculpa, Cláudia. Tenho uma reunião urgente. Vou ter de ir.

— Não te preocupes. Não te posso prender aqui para sempre.

— Liga-me, se precisares de alguma coisa, por favor. – Diz, preocupado.

— Não vou precisar. – Responde, regressando à frieza que a caracterizava.

Assim que ele bate a porta, ela chora. Aprendeu a chorar. Uma das maiores aprendizagens que este acidente lhe trouxe foi o libertar das suas emoções, sobretudo das angústias. Mas, para ela, chorar continuava a ser um ato de fraqueza. Ainda não conseguia perceber que este acidente, e a condição em que havia ficado, foi só o início do resto da sua vida.

Foi até ao quarto. Queria dormir. Queria não ter de assistir à sua própria realidade. Com esforço, e tendo em conta o que lhe foi ensinado no hospital, lá conseguiu sair da cadeira e arrastar-se para a cama. Tentou dormir, mas em vão. Não conseguia pregar olho, porque os pensamentos não se desviavam da sua mente. Estava acabada – pensava.

Levantou-se para ir buscar um dos livros da prateleira. Ao tempo que não lia, pelo menos, algo que não se relacionasse com o trabalho. Tentou sair da cama e sentar-se na cadeira de rodas, mas a ausência de prática estava a dificultar-lhe a ação. Até que, no rol de todas aquelas tentativas, caiu. Caiu, em cheio, no chão. Tentou levantar-se. Não conseguiu. E ficou ali, num silêncio brutal, sentada no chão.

Olhou a janela do quarto. Lá fora, um sol de primavera. Pela primeira vez teve a capacidade de observar o quão bonito é um dia de sol, o quão inspirador pode ser um dia bonito. Ao tempo que ela não se deixava levar pela beleza da natureza. A única natureza que conhecia era a que vivia dentro das quatro paredes do seu escritório.

Mas, agora, estava ali no chão, por não se conseguir levantar, a observar, com olhos de ver, a felicidade que um simples raio de sol pode trazer a um coração tão morto como o dela. Sentiu coisas bonitas. Antes, só sentia pressão, ansiedade e todos aqueles sentimentos que nos matam aos bocadinhos. Aqueles raios de sol, que lhe entravam pela janela, eram como réstias de esperança para aquele corpo sentado no chão.

Esboçou um leve sorriso envergonhado. Estava a aprender a rir também. Aliás, sentiu, naquele momento, que tinha de reaprender uma série de coisas que desaprendeu. Sentia-se uma criança a crescer, a única diferença é que não iria aprender a andar. E, com todas as coisas más que já lhe tinham passado pela cabeça durante toda aquela semana, ela começava a ver uma luz ao fundo daquele túnel escuro, em que tinha estado grande parte da sua vida.

Pensou na ironia da vida. Tinha tudo, tinha dinheiro que podia comprar tudo e, no fundo, não tinha absolutamente nada. Nada daquilo, que estava naquela casa, a fazia, verdadeiramente, feliz. Eram acessórios e a sua vida sempre foi repleta daqueles acessórios. Precisou de ser atropelada, de ter ficado paraplégica e estar, naquele momento, sentada no chão, por não se conseguir levantar, para perceber que toda a sua vida foi repleta de coisas acessórias, de bens materiais que em nada aumentavam a sua felicidade interior.

Agarrou no telemóvel que estava pousado na cama ao seu lado. Digitou o número e, quando atenderam, disse:

— Podes vir aqui? Preciso de ti, Pedro.

Fim!

Comments

comments

PARTILHAR
Artigo anteriorEncontrou-se, a meio caminho, com a boca dele
Próximo artigoO amor é assim
RAQUEL FERREIRA, a engenheira
É de uma aldeia perdida no norte do país e ambiciona ser mestre em Engenharia Civil. No percurso, apaixonou-se pelas palavras e escreve. Sobre tudo. Sobre nada. Ainda não é tudo o que quer ser, mas luta todos os dias por isso.