Encontrou-se, a meio caminho, com a boca dele

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Fotografia © Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Ela entrou e o mundo virou-se na sua direção. O poder de cada passo vibrava no soalho perfeitamente envernizado. O perfume suave, estrategicamente colocado nos pulsos finos, acompanhava-lhe os movimentos. O cabelo escuro caia-lhe em cascata pelas costas e dançava à medida que a caminhada lhe exacerbava o menear das ancas. As roupas simples, num pendant natural, ajustavam-se à elegância que lhe vinha da alma. O seu olhar, escuro e profundo, marcado na expressividade, não atingiu ninguém, mas abraçou cada um deles. Ofereceram-lhe meios sorrisos, olhares de esguelha, olhares penetrantes, humedeceres de lábios que lhe sussurravam o desejo de quem se atrai entre duas paragens de metro. Ela não notou. Não conhecia absolutamente ninguém.

Delicadamente, encostou-se ao balcão e pediu uma bebida. Aquela que lhe lembrava melhor a sensação de o ter em si. Queria as gotas de gelo, que lhe trazia de volta o frio da antecipação do seu toque. A força do equilíbrio na ponta do pé, a leveza da última dança ainda a percorrer-lhe o corpo. O moscatel chegou depois do sorriso aberto ao rapaz por trás do balcão – menos gelo, mais bebida. E, enquanto fazia o gesto clichê de percorrer o rebordo do copo largo com a ponta do dedo esguio, deixou-se relaxar. Respirou fundo e esperou.

A música tocava baixo, melodia para conversadores, e ela ia respondendo à simpatia do empregado com leves acenos de cabeça e um piscar de olho, quando ele voluntariamente lhe encheu novamente o copo. Sentia-lhe a necessidade do torpor e ela soube que a sua energia estava plenamente sincronizada com tudo o que a rodeava. Aguardou pacientemente, pois sabia que o que queria viria até ela sem esforço, embalado na corrente que ela criara. O tamborilar dos dedos na superfície dura à sua frente compassou cada momento. As unhas vermelhas, perfeitas. Os olhos cravados nela, nas curvas do cabelo negro, nas pernas longas, na ponta do pé a balançar ao som da conversa alheia, nos dedos no copo de moscatel, nas gotas de água gelada que dali escorriam e que ela apagava com um gesto suave. No pontilhado que lhe surgiu na pele, fruto do arrepio interno que a percorreu, ela soube que a espera terminara.

Não se mexeu um milímetro. Não mudou nenhum dos seus rituais daquela noite. Deixou-o apenas aproximar-se. Os seus passos não se ouviam no meio de toda a cacofonia, mas ela quase que os conseguia contar. Ele palmilhava as linhas de energia dela. As que ela tinha lançado durante todo o serão.

Lia-lhe a mente. Sabia que, no turbilhão dos seus pensamentos, estava a imagem nítida do corpo dela naquele soalho. Com ele. Numa fusão estranha que ele afastara, cheio da certeza de que ela voltaria. A mão dele tocou-lhe a curva do fundo das costas e ela sentiu-lhe o calor do corpo. A conversa diminuíra à sua volta, o fluxo de energia entre estes dois seres tinha-lhes exigido o silêncio. Esperavam o desfecho da solidão daquela mulher, aguardando que o mundo deles voltasse aos eixos certos.

Sem se virar, ela sentiu-o inspirar-lhe o perfume. De uma maneira quase animal, sentiu-lhe o querer todo. Rodou ligeiramente o rosto e encontrou-se, a meio caminho, com a boca dele. Perto, tão perto, que metade das mesas à volta prendera a respiração. Deixou-o compassar e sorrir com o seu ar confiante. Inclinou-se mais ainda. Sentiu-lhe o hálito fresco. Mordeu o lábio inferior. Viu-o vacilar na sua intenção, mas era tarde… estava demasiado preso.

E, quando o sentiu assim, ela percebeu… que já tinha passado. O tempo de tudo aquilo tinha fugido. Foi a materialização da ilusão que lhe deu a certeza de que tudo aquilo se derretera mais depressa do que o gelo comprimido nas ondas de todos os moscatéis já partilhados.

Com as unhas vermelhas, perfeitas, prendeu a nota debaixo do copo vazio e, num salto leve, imperceptível, virou-lhe as costas e saiu. Num ritmo só dela, com o suspiro da audiência, com o mistério de ser de forma completa, com os olhares dos outros no ondear dos seus cabelos, com o olhar dele nas curvas do seu adeus.

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MIRIAM AFONSO, a Mi
Escorpiã até ao tutano. Bem disposta e de sorriso fácil. Apaixonada pela vida e pelos outros. Prefere frio ao calor, chocolates a gomas e livros a sapatos. «Os Maias» são um bocadinho como a bíblia lá por casa e «O Principezinho» povoa cada espaço vazio nas estantes. É vizinha de um dos bairros mais bonitos do mundo - o do Amor - e escreve para se encontrar.