Como pode uma criança tão pequena amar-me tão incondicionalmente?

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Fotografia © Dora Nunes | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Dora Nunes | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Quando me perguntam o que me faz mais feliz, simplesmente fico apática e a vida passa à minha frente, como se de uma longa metragem se tratasse! Fico sem palavras, o que quem realmente me conhece sabe que não é fácil!

O que me faz feliz é o abraço sincero e o sorriso encantado da pessoa mais importante da minha vida. O seu sorriso acriançado, mas que ama de uma forma tão madura que me confunde a alma! Como pode uma criança tão pequena amar-me tão desmedida e incondicionalmente como tu?

Hoje escrevo para ti e sobre ti. Tu que és o centro de todo o meu mundo; a pessoa mais importante de todas; a pessoa que me fez ver o mundo de uma outra forma, mais intensa, mais transparente, mais colorida e melhor! O ser que carreguei em mim todos os meses de alegria, de partilha e de muito amor por ti e por mim também.

«Mamã, escreve para mim! Escreves sempre para alguém…» Disseste-me em tom envergonhado e baixinho com medo que alguém ouvisse. Era um segredo só nosso, como tantos outros. Foi o teu pedido antes de adormeceres e ali ficaste abraçada a mim num instante eterno, aquela eternidade só nossa, de cumplicidade e amor que tão bem conhecemos. Não podia recusar este pedido tão especial, minha luzinha d’Ouro, e hoje escrevo para ti e só para ti.

Menina de sorriso contagiante, de espírito saltitante e de alma nobre, de riso fácil e de lágrimas que rolam sem vergonha sempre que algo te corre menos bem. És a verdadeira forma de amar e mais pura que alguma vez conheci.

Se sempre me imaginei tua mãe?

Confesso que não. Confesso-te que vieste sem programas, sem datas e apareceste como uma brisa fria nos primeiros dias em que tive de me habituar à ideia. Ia mesmo ser mãe! A partir desse momento, amei-te desde o primeiro instante. Amei aquele ser que crescia a olhos visto. E como era possível viver tamanha ansiedade, mas de uma forma tão serena? Como podias tu, mesmo antes de nasceres, trazeres-me já tanta felicidade?

No dia em que te pude ter nos meus braços, pela primeira vez, foi como se fosse ao céu e viesse. Estavas finalmente neste mundo. Estavas finalmente bem e cá fora, preparada para enfrentares esta vida louca, de pressas, mas de afetos, de pessoas que valem verdadeiramente a pena.

Desde então, ganhei uma melhor amiga, uma confidente, uma companheira até das desventuras da vida. Sim, porque nunca te consigo esconder “quase nada”. Quem me lê pode achar exagero em tudo isto que escrevo, mas nós as duas sabemos tão bem que não é!

Desde muito pequenina que me compreendias num simples olhar. Consegues ler-me a mente num sorriso ou na falta dele. O teu abraço consegue ser o alento de que preciso naqueles dias em que estou tão em baixo, que penso que não me vou conseguir mexer. O nosso abraço? Consegues sentir como é bom só de pensares nele, verdade? E as brincadeiras malucas que me fazes fazer em plena rua? Para mim, és tão-somente a maior riqueza que alguma vez poderia ter tido, o maior presente do dia a dia, recheado e pintado de cor púrpura que nos fala a Cinderella tanta vez!

É incrivelmente gratificante quando me dizes que és tão feliz ao meu lado. Poder-te-ia falar da cor que dás às nossas vidas, da forma terapêutica como tocas a vida de quem tem o privilégio de te ter na sua vida, mas vou ser egoísta e vou falar só de mim, só de ti e de mim, da nossa caminhada juntas, lado a lado e de mãos dadas com e para a vida. Oxalá consigamos manter este laço mágico, que nos uniu e une como se nunca se desatasse.

Não me esqueço do primeiro texto que escrevi, lembras-te? Foi para ti que o li em primeira mão. Os teus olhitos pareciam duas luzes no presépio a iluminar a Noite de Natal. Só paraste de respirar quando terminei de ler, e disseste-me: «Oh mãe, mas foste mesmo tu que escreveste?» Senti que gostaste mesmo do que ouviste. E eu? Eu gostei tanto de partilhar contigo!

E, hoje, partilho contigo a melodia que trago comigo no meu coração e que te pertence. E partilho contigo o filme onde tu és a atriz principal! Desejo que — neste mundo do desenrasque-se quem poder; neste mundo em que, se demonstrares os teus sentimentos, és uma sonhadora (e que mal há nisso?) — sonhes muito. Mas sempre com os pés assentes na terra. Que o sonho te faça voar mais alto. Que encontres o teu verdadeiro caminho numa sociedade em que tudo o que foge à regra é denominado como «esquisito e/ou mau».

Que sejas a menina de alma nobre e pura como és, que nunca percas a capacidade de sorrir e que o teu riso seja motivo para alguém sorrir também! Toca a vida dos outros, sendo, pura e simplesmente, tu! Minha luzinha d’ouro, não deixes que te cortem a capacidade de sonhar e de acreditares sempre em ti! Nunca te esqueças de que a força para conseguires tudo está aí, dentro de ti, e que podes tudo. Basta acreditares.

Não aceites sempre que te disserem que não és capaz. És capaz de tudo. Tens de tentar as vezes que forem necessárias até conseguires! Nada se consegue sem trabalho, sem tentativas! A própria vida é uma tentativa, sabias? Uma tentativa de sermos o mais felizes possível.

Vão ser vários os degraus que terás de descer na vida. Terás desgostos. Terás desilusões. E quem me dera conseguir evitar isso tudo e sofrer só eu, mas não posso. Terás de passar pelos caminhos desta vida, mas nunca te esqueças disto:

O segredo está na forma como os encaras. Se caíres cinco vezes, tens de te levantar dez! Não terás só desgostos. Terás também muitas alegrias. Terás noites em que não conseguirás dormir de tão feliz que estás! Sorrirás sozinha, acompanhada. Sorrirás da vida e para a vida!

E é o que mais te desejo, minha filha. Que sorrias muito. Que sejas tu, na mais verdadeira essência do ser, pura e simplesmente, feliz!

O que me faz realmente feliz? Tu!

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DORA NUNES, a Cinderella
Tem 37 anos e vive em Ponte do Sor — uma «cidade alentejana», diz, «de gente de alma gigante». Trabalha como administrativa num lar de idosos e canta numa banda. Duas terapias que a fazem sentir-se feliz. A escrita surgiu na adolescência. Era uma miúda tímida, com os medos e os anseios tão típicos da «idade do armário». Na escrita, libertava-os, soltava-se. Um desejo? Que cada palavra sua toque o mundo de quem a lê. Sente que a sua missão é ajudar os outros e acredita no lado bom de todos nós. Quem é ela? É a nossa Cinderella!