Um coração em jogo

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Fotografia © Pablo Heimplatz | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Pablo Heimplatz | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Odeio ter nascido assim. Assim, com o coração mal calibrado. Um coração maior do lado da emoção e da sensibilidade, menor do lado racional e prático.

Um coração que vive constantemente no arame, que dá um passo hesitante em frente do outro, com um terror enorme de cair no vazio. Que olha para baixo, e aterroriza-se com a altura abismal. Lá em baixo, não há rede. De onde, se cair, pode não mais voltar a se levantar.

O arame é tão fino que nem sei como me aguento em cima dele. Cada vez que o meu coração resvala, prende-me a respiração. Cada abalo do vento deixa-me assustada.

No meu coração está o que de mais precioso tenho. Mas é tudo tão frágil. Nem sei como tem sobrevivido até aqui sem cair no abismo. Às vezes, fica pendurado. Algum passo em falso, ou alguma armadilha montada no seu caminho, fá-lo perder o equilíbrio. E tremo numa angústia tremenda. E se cai? Como voltar a pô-lo no sítio, em cima do arame, sem o perder definitivamente?

O medo da perda paralisa-nos. O coração tem memória e, de cada vez que se desequilibra, desperta as lembranças das vezes anteriores. E isso, ao contrário de que se poderia imaginar, não facilita. Porque a dor é cumulativa, a seguinte não apaga a primeira. O coração não cria calo, nem enrijece com a dor. Pelo menos, o meu não. Ele debilita-se. Por isso é que vive com medo da dor seguinte porque já sabe o que virá e como será. Sofre pela antecipação e sofre no momento.

Não sei como viver assim. Este coração mal calibrado cai sempre para o mesmo lado. Qualquer sopro frio nesta direção apavora, acorda os fantasmas todos ao mesmo tempo. Sei que não posso esconder-me dos ventos porque estou exposta a eles, mas isso faz-me sofrer, muitas vezes, desnecessariamente.

Quando se ama, tem-se o melhor e o pior do mundo. Tem-se a felicidade estampada no rosto, mas o coração sempre apertado. Porque a perda do melhor que se tem deve ser uma dor tamanha, indescritível. Se não for a pior, deve ser das piores. E, se as dores que já conheces, deixaram-te com vontade de rasgar a pele e tirar de lá o coração, nem quero imaginar os estragos de uma dor maior ainda.

E o meu coração cá vai andando, devagarinho, sobre o arame, tentando não olhar para baixo, fechando os olhos e sustendo a respiração tantas vezes no percurso. Vou dizendo, para mim: «aguenta-te», «não caias», «vai correr tudo bem». O risco é grande e, quanto maior o risco, maior o ganho ou a perda.

No momento em que amo, estou a apostar-me a mim própria contra a vida. E o meu coração teme a perda e, todos os dias, faz questão de me recordar isso para que não me esqueça do quanto está em jogo.

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ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.