Luta por ti, uma vez na vida

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Fotografia © Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

A Joana é uma mulher bem parecida, bonita, com um corpo perfeito. A Joana é casada e tem uma filha. A Joana está desempregada. Não conheço a Joana ao pormenor. Conhecemo-nos por circunstâncias da vida. Foram poucas as vezes em que falámos. Mas ela é simpática, carinhosa, sensível e muito talentosa. E não é feliz. A Joana não é feliz. Não sei se alguma vez foi.

Tal como a maioria das raparigas da sua terra, a Joana tinha o sonho de casar, entrar na igreja vestida de princesa e viver esse conto de fadas. Era esta a ideia que sempre alimentou o seu coração. Era este o seu sonho. Casar e ter filhos.

E viveu este dia maravilhoso.

Mas, inesperadamente, após 15 dias do casamento, a sua vida desabou. Descobriu que o marido a traía. Ficou triste, abalada, despedaçada e muito magoada. Mas a Joana não quis dececionar a família, os pais que a ajudaram a ter a casa, as pessoas que a tinham ajudado no casamento. A Joana não quis deitar por terra tudo aquilo que tinha idealizado. Por medo, por consideração aos outros, por cobardia… Não sei.

Passaram vários anos. E a Joana continuou a alimentar o seu conto de fadas, tendo uma filha dele. Continuou com ele, até hoje. Continuam a viver juntos. E ele continua a ser um péssimo marido. Maltrata-a, psicologicamente. É mau marido e mau pai. Como ela está desempregada, ele sente-se no direito de lhe fazer todas as exigências possíveis, relativamente às tarefas de casa e não só… E ela, ela é uma empregada que ele ali tem.

Apesar de tudo isto, a Joana continua com ele. Até hoje! Arranja sempre mil desculpas. Não conhece outra realidade e acha que tem que ser assim.

Um dia disse-lhe: «Joana, não tem que ser assim. A vida é muito mais do que isso!» «Quando ela crescer, eu separo-me dele», respondeu-me. «E entretanto, Joana? Quantos anos passaram por ti? Quanto da tua vida desperdiçaste?», pergunto.

E voltam todas as desculpas. Primeiro porque está desempregada e não tem como se sustentar, a si e à sua filha. Depois, é a casa, o gato, o cão, os pais que não iam compreender. E fica bloqueada nesse ciclo.

Insisto: «Por favor, Joana, pensa em ti, uma vez na vida. Se não estás bem, como podes estar para a tua filha? Os teus pais e os teus amigos podem ajudar-te. Podes tentar arranjar trabalho noutro sítio qualquer. Vai-te embora.»

A Joana começa a chorar. E eu já não sei o que dizer. O medo bloqueia-a. O medo de arriscar, o medo de falhar, o medo de ser julgada, o medo de se sentir menos que as outras, o medo de ficar pior do que está e o medo pelo desconhecido.

E eu não posso dizer mais nada. É sempre mais fácil avaliar as situações de fora. Desconheço as suas razões, os seus princípios, a forma como foi educada. Apenas sei que não está feliz. Que nunca o foi, com este casamento.

Hoje, Joana, estás aí sentada em frente ao mar a refletir sobre a tua vida. Gostava que, hoje, a brisa do mar te enchesse de coragem. Gostava que, a cada onda que rebenta, te saísse o peso que carregas em agradar aos outros. Gostava que o som do mar te enchesse de esperança. Porque a vida é muito mais do que aquilo que conheces. Gostava que conseguisses ver para além dos teus limites, Joana. Que sentisses alegria, força e coragem para mudar, para ir, para lutar por ti, pela tua felicidade.

Uma vez na vida, Joana. Por ti. Para ti.

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CARINA MAURÍCIO, a fotógrafa
Tem 31 anos. É budista e conservadora-restauradora. É de riso e choro fáceis. Tem tanto de sensível, quanto de corajosa e lutadora. Adora fotografar, jogar ténis e viajar. Viciada em comida, é fã de comida italiana. Gosta de dormir, de café, de chocolate. Dançar? Pode ser a noite toda. Mas também gosta de ficar na ronha, em casa, entre filmes e pipocas. Adora o som da chuva a cair no inverno e o som do mar em dias de verão. Campos floridos enchem-lhe o olhar, assim como as cores das folhas do outono. Apaixona-se facilmente e é uma apaixonada pela vida. Uma geminiana pura.