O amor da minha vida

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Fotografia © Sweet Ice Cream Photography | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Sweet Ice Cream Photography | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Às vezes, preciso-te. Preciso do teu colo, do abraço que me aquecia o coração, do cheiro do teu pescoço, do teu beijo quente e doce, das tuas palavras que me davam sempre a confiança de que precisava. Preciso-te, tantas vezes, para conseguir adormecer, para secar as lágrimas que me inundam o olhar, para me dizeres que eu sou muito mais do que aquilo que teimo fazer de mim.

Preciso-te, mas foi preciso, um dia, a vida separar-nos e obrigar-nos a seguir caminhos diferentes. Preciso-te, mas foi preciso, um dia, a vida dar-nos um abanão para percebermos que nem sempre o amor é suficiente e que, muitas vezes, as pessoas precisam de se separar, de se tornarem sós, para se encontrarem e se descobrirem. Preciso-te, mas foi preciso anularmos os sonhos a dois para aprendermos que os sonhos conjugados na primeira pessoa do singular vêm sempre em primeiro lugar e que um «nós» se faz de dois «eus» que estão em pleno e não de dois «eus» anulados.

E, mesmo que o nosso «nós» já não exista, mesmo que as nossas camas já não tenham espaço para o corpo um do outro, serás sempre o amor da minha vida. Porque tiveste a ousadia e a coragem de pôr um ponto final quando percebeste que já vivíamos de reticências a mais. E eu nunca vou conseguir agradecer-te essa coragem que eu nunca tive com medo de perder o conforto que tinha no teu colo.

Amávamo-nos, mas já não nos gostávamos e há momentos em que a razão tem de ganhar a batalha com o coração.

Odiei-te muitas vezes, senti uma raiva gigante outras tantas e houve momentos em que o ódio era todo por mim, por ter de perder para perceber o quanto precisava de ter. E, por mais que já saibamos a ladainha de que só damos valor quando perdermos, vamos todos cair no mesmíssimo erro. Todos nós, um dia, perdemos e, só nesse momento, percebemos o quanto precisávamos daquela pessoa. Dizem-nos que dói, mas nós, masoquistas, precisamos de ir lá sentir a intensidade da dor, o espaço que nos ocupa o vazio. Houve momentos em que deixei que o ódio tomasse conta do meu coração, mas depois percebi que não conseguia alimentar um ódio que, na verdade, nem sentia e que era apenas algo que eu própria me obrigava a sentir por tu teres tido a coragem que eu não tive: encerrar, de vez, o capítulo final de um livro há muito terminado.

Vou amar-te sempre. Sei-o. Sinto-o. E o lugar que tu ocupas no meu coração nunca ninguém vai ocupar. Aprendi a vida contigo. E nunca ninguém pode roubar o lugar de quem nos ensinou a vida. Vou amar-te sempre, mesmo que agora os nossos caminhos não sejam os mesmos, porque só podemos amar para sempre alguém que teve a coragem de nos mostrar que, primeiro, precisamos de aprender a construir a nossa felicidade individual para, depois, aprendermos a ser felizes com os outros. E eu aprendi.

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RAQUEL FERREIRA, a engenheira
É de uma aldeia perdida no norte do país e ambiciona ser mestre em Engenharia Civil. No percurso, apaixonou-se pelas palavras e escreve. Sobre tudo. Sobre nada. Ainda não é tudo o que quer ser, mas luta todos os dias por isso.