O Confronto

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Fotografia © Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

As árvores convictas diziam que não. Não. Não. Mas o vento soprava, passava de raspão junto a elas e dizia que sim. Sim. Sim. O vento ganhava confiança e, agora mais severo, soprava de novo: sim, sim. Aquele sim entranhava-se nos ramos das árvores, deixando-as num balanço atordoante e nauseante. As árvores sentiam que não, mas os seus ramos oscilavam e o vento depreendia que sim. O vento pressentia que estava quase a persuadir as tontas das árvores e que não tardaria muito que elas dissessem que sim. Já assobiava com a ideia da vitória. Engano, o do vento, porque as árvores sentiam, cada vez mais, convictamente, que não. O movimento dos ramos era aleatório e incoerente, confundindo o vento. O tronco dizia que não e, na hierarquia da árvore, é ele que tem a última palavra. O vento inabalável no seu confronto não deu relevância ao tronco, acreditava que sim e as árvores sabiam que por isso o vento baixaria a guarda. Porque não. Com uma crueldade crescente o vento voltava a soprar e insistia que sim. A possibilidade de uma queda aparatosa tornava-se cada vez mais iminente: os ramos estavam emaranhados entre si e já não se percebia o início e o término de cada um deles. De novo, o vento distraiu-se com a possibilidade da sua vitória e nem se apercebeu que as árvores estavam agora entrelaçadas e juntas; diziam que não. Não. Não. O vento imperturbável e obstinado reiterava que sim. Sim. Sim. A rapidez a que o vento se deslocava retirava-lhe todo o bom senso e clareza de raciocínio e mesmo debaixo do seu nariz não percebia que as árvores ainda diziam que não. Agia como um vitorioso, rodopiava sobre si e por entre as árvores, alheio à agitação e à destruição que a sua passagem causava. O vento era quase vencedor de uma batalha sem causa. A vulnerabilidade das árvores irritava-o e conferia mais convicção aos seus gestos. Porque sim. As pobres árvores sentiam-se ocas perante tamanhas afrontas. Porque não. O vento mostrava-se inabalável, quando um jorro de água foi desferido sobre a terra. As árvores dormentes, daquele confronto desconcertante, reagiram e agitaram-se mas, desta vez, para receberem com regozijo aquela água que lhes devolvia a tranquilidade e as saciava. O vento foi deitado por terra, com a força da água golfada, e prostrou-se perante as árvores ainda enlaçadas.

Conto do livro «Arbore» [Editora Alfarroba].

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ANA SANTOS, a gaivota
A vida fez com que ousasse pegar numa caneta e num caderno e nele viajar pelo mundo das palavras escritas sonhadas. Primeiro a medo, depois com menos receio, deu por si a relembrar-se do prazer que já em criança sentia pela escrita. Com uma licenciatura em Físico Química, não causará estranheza que a natureza seja o seu porto de abrigo. Adora estar em contacto com a natureza e é nela que encontra algumas respostas para os seus desassossegos, sem se sentir culpada, mas sempre abraçada.