Joana começou a sentir que cometia uma traição

Texto vencedor | Desafio de escrita: «Coragem»

1856
Fotografia © Alexa Mazzarello | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Alexa Mazzarello | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Na sua cabeça, fervilhavam ideias. Elas bailavam numa dança descompassada, rodopiavam até formarem uma espiral sem fim. Joana sentia-se enlouquecer, já que tudo lhe parecia inacessível. Não encontrava uma solução.

Afinal, tudo começou naquela tarde de verão. O elevador parou, a porta abriu-se e ele entrou. Nunca se tinham visto. Cumprimentaram-se.

— Boa tarde! — Falaram do tempo. — Está um calor!

— Sim, também já se precisava.

Pouco mais disseram, já que a viagem terminou rapidamente. Uma breve despedida com os cumprimentos habituais e separaram-se. Ainda não tinha caminhado muito, quando ela ouviu uma voz atrás de si:

— Não pense que estou a persegui-la. Eu também preciso de ir nessa direção. — Riram e passaram a caminhar juntos. — Sabe, eu vivo sozinho. Vou comprar pão naquela pastelaria ali à frente.

— Eu também vou lá. Só temos aquela caixa multibanco. Preciso de levantar dinheiro.

E foram, e acabaram por tomar um café. Parecia que se conheciam de longa data e que se reencontravam, que necessitavam de ter aquele momento. Riam. Trocavam olhares. Falaram do que lhes apetecia, do que gostavam, do que sentiam. Quase sem se darem conta, iam desnudando as suas vidas. Nas suas atitudes mantinha-se o pudor, o respeito mútuo. Quando se separaram, os sorrisos iluminavam os seus rostos e ambos concordaram.

— Sim, continuaremos a ver-nos por aí.

Joana não queria acreditar. Como se pode viver tanto tempo sem se dar conta de que a vida está a perder o seu brilho; de que tudo está a ficar cinzento, sem interesse, sem motivação?

Naquela tarde sentiu que, afinal, a vida não estava a ser o que ela desejava. A sua alegria e jovialidade foram notadas e apreciadas. Afinal, embora caminhasse pelos cinquenta anos, conseguia ter uma presença que merecia elogios.

Sim, foi uma conversa banal e descontraída, mas, ao mesmo tempo, rica no seu conteúdo. Joana sentiu-se a viver um momento mágico. Não houve ali o desejo pelo outro ou a atração física. Ambos desfrutaram do que a vida lhes proporcionou.

Mas Joana passou a interrogar-se: O que estava a ser a sua vida? Onde estava aquela relação vivida durante anos e de forma tão intensa? Que foi feito daquele amor que os fizera felizes? Sim, afinal tudo se foi diluindo com o tempo… O único filho saíra de casa, organizava já a sua vida. Eles, o casal tão unido de outrora, entregaram-se às suas respetivas profissões. Cada vez tinham menos que partilhar. Passaram a viver realidades diferentes. Afastavam-se.

Uma criança acaba por abandonar o brinquedo, depois de quase o ter destruído de tanto o desfrutar com a energia e entusiasmo que lhe é peculiar. Assim aconteceu com aquele amor. Mas, se a criança vai tropeçando no brinquedo, porque ele ainda anda por ali, eles já não tropeçavam sequer!

Quando, pela segunda vez, encontrou Vasco, assim ele se chamava, Joana sentiu o seu coração bater mais forte, os seus olhos brilharam de alegria. Num impulso, cumprimentou-o com dois beijos. Foram dois beijos na face, mas que a fizeram tremer de emoção.

Sem serem combinados, estes encontros sucederam-se. A atração mútua era uma realidade. Numa das despedidas, Vasco não resistiu a abraçá-la. Apertou-a contra si querendo mostrar-lhe o seu afeto. Joana ficou paralisada. Naquele momento, sentiu medo. Não comentaram o sucedido, sentindo-se mutuamente comprometidos, fazendo algo que lhes era proibido.

No seu conceito de fidelidade, Joana começou a sentir que cometia uma traição. Seria? Estava a trair o quê? O amor de outrora? Agora, já não havia amor. Havia algo que a prendia a uma relação cheia de nada. Afinal, vivia numa prisão. Estava rodeada de muros e obstáculos. Sim, agora viviam uma vida de faz-de-conta, mostravam uma fachada ilusória. E, assim, querendo salvar as aparências, se iam aprisionando. Os encontros esporádicos com Vasco eram a traição, já que a incentivavam a transpor barreiras, a derrubar os muros.

Joana ansiava por se encontrar com Vasco. Contudo, via crescer as suas incertezas, o seu medo. A sua vida não podia continuar assim!

Onde estava a coragem de que necessitava? Porquê tanto medo? Os seus entes queridos, os amigos, como iam aceitar? E, depois, como seria a vida fora daqueles muros? Não tinha certezas. Tinha, sim, urgência de mudar a sua vida.

Atordoada, assaltada por tantas incertezas e sentindo o desejo avassalador de viver, Joana pensava estar numa caminhada sem saída. Sentia saudades da Joana que fora noutros tempos. Ansiava tê-la de volta.

Naquela manhã de primavera, Joana reparou como a natureza explodia em renovação. Isso motivou-a. Arranjou-se para sair. Escolheu a roupa de que gostava, que lhe proporcionava mais conforto. Decidiu caminhar. O seu desejo de encontrar paz levou-a a um lugar que bem conhecia. Sentou-se e contemplou o mar, cuja companhia a tranquilizava. Estava a sós com a natureza. Sentiu que o sol a beijava, que a brisa a acariciava. Sentiu serenidade.

E foi assim que Joana se deu conta de que precisava de conquistar um amor. O amor por si! Antes de mais, tinha que se amar.

Observando o movimento constante e ritmado das ondas do mar, percebeu que a vida traz as oportunidades, mas que as poderá levar se não as agarrarmos no momento certo.

Assim, Joana sentiu nascer a coragem de que necessitava. Sentiu que se amava! Sentia-se livre para viver!

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MARIA REIS, a avó-sorrisos
Ela não é uma mulher rica. É, sim, uma rica mulher! É dona de um coração generoso, que já ultrapassou sofrimentos, mas também sabe muito sobre o amor. É sonhadora: os sonhos estão sempre lá e o seu percurso de vida foi-se construindo com a realização de muitos deles. Desafios? Sim, aceita-os com determinação e entusiasmo. E, como alguém disse, «às vezes, é uma caixinha de surpresas».