O drama dos 30

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Fotografia © Carina Mauricio | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Carina Mauricio | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Não sei quanto a ti, mas eu nunca criei grandes expectativas nisto que é viver. Aliás, perante todos os acontecimentos do passado, previa-se que a minha vida fosse um desastre. Ou melhor que o desastre fosse eu. Que tudo tivesse descambado da pior maneira possível. Mas aqui estou eu.

Quando eu era criança, ao contrário de muita gente, não pensava muito no futuro. Não ambicionava nada. Não questionava a vida. Achava que naturalmente ia crescer, trabalhar numa coisa qualquer precária, como toda a gente da terra, casar, ter casa, ter filhos. Era esta a forma de viver que conhecia. E, por isso, achava normal que o meu percurso de vida também fosse assim…

Hoje, aos 32 anos, questiono-me muito. Questiono-me mais do que quando era criança.

Refletindo no meu percurso profissional… No secundário, incentivada pelos professores, descobri que até eu, sem dinheiro, podia ir para a universidade estudar. A grande questão foi: qual profissão? Nunca tinha tido realmente a consciência de que eu poderia aprender uma profissão. Hoje, não me arrependo nada da escolha. Aliás, foi a escolha mais acertada da minha vida. Não que não tenha um trabalho precário, como imaginava que iria ter. Sim, tenho, quando tenho. Mas, quando acontece a sorte de ter, não tem o peso de um trabalho, porque adoro o que faço. E, por isso, sinto enorme gratidão.

Hoje, aos 32 anos, não tenho um trabalho estável. Não tenho casa própria. Não tenho sequer namorado ou marido e muito menos filhos. Confesso sentir uma certa inveja de quem já tem uma família. Inveja das pessoas que me dizem: «Ah e tal, fazes muito bem. Aproveita a vida enquanto podes, porque depois tudo muda.» As mesmas pessoas que também sentem inveja de mim por não ter grandes responsabilidades. Também as tenho, como toda a gente. Há dez anos que sou independente e cumpro com as minhas obrigações. Mas, quando se tem um filho, decididamente as prioridades mudam. São também essas pessoas que me dizem: «Se eu soubesse o que sei hoje, nunca teria comprado a casa.» Para além disso, vejo muitas pessoas a divorciarem-se, muitos filhos de relações fracassadas. Volto a refletir. Perante todos estes casos já não sinto inveja de ser uma “fracassada” no que diz respeito a relacionamentos, a filhos ou a não ter uma casa própria. Sinto-me, antes, agradecida por não ter sido precipitada no calor de cada uma das paixões que senti. E que não passaram disso mesmo… E sinto-me agradecida por não viver angustiada com isso e aproveitar a vida.

Ultimamente, da minha boca saem frases como: «Eu vou ficar solteira, vou viajar muito e aproveitar a vida ao máximo.» Não sei se assim será. Penso que me irei arrepender se não tiver filhos. Seria mais fácil ter a certeza de muitas raparigas que não querem ser mães. Mas eu não. Eu quero. Mas quero ter filhos com alguém especial. E se esse alguém especial não existir? E se existir e nunca se cruzar comigo? E como saber se esse alguém especial não passa de uma ilusão na minha cabeça? Vou colocar em causa a minha maternidade? Talvez sim. Talvez não. Talvez sim. Não sei.

Questiono-me, muitas vezes, sobre a intensidade dos sentimentos nas relações. Essas relações que terminam e deixam os filhos em situações complicadas. As pessoas casam e têm filhos por medo de ficarem sozinhas ou porque achavam mesmo que era o tal? O que é isto do tal? Porque a mim é isso que me assusta. Saber que tudo muda, até os sentimentos. Então, será que, algum dia, tudo será suficiente para concretizar feito tão grandioso que é ter um filho?

Por outro lado, não ter essa família, com que sonho às vezes, permite-me ir realizando os meus objetivos. Permite-me ir investindo na minha carreira profissional e trabalhar naquilo que gosto, porque tenho facilidade em deslocar-me e instalar-me numa nova cidade. Permite-me viajar, algo ainda recente na minha vida, e que estou a adorar. E quero viajar muito, conhecer tanto. Permite-me pensar em mim em primeiro lugar. Um pouco egoísta, eu sei. Mas também só recentemente o comecei a fazer. Portanto, acho que mereço aproveitar este momento. E permite-me fazer um sem fim de coisas que adoro e que não tenho que pensar se tenho tempo, dinheiro, disponibilidade. Permite-me ser um pouco mais irresponsável, aventureira, corajosa, audaz. E com isto vou crescendo e sendo feliz.

Hoje, a minha vida não é nada daquilo que imaginava em criança. É muito melhor. Tenho saúde. Tenho um trabalho que adoro. Tenho dinheiro para comer e pagar uma renda. Tenho a minha família que adoro. Não tenho nada daquilo que era suposto alguém aos 30 anos ter. Mas tenho tudo. Porque na realidade os bens materiais não valem nada. Porque a vida muda num minuto. Porque hoje posso estar muito melhor do que no futuro. Ou, então, o futuro será ainda mais feliz. Claro que ambicionamos sempre mais. Claro que vão existir sempre as perguntas de como seria, se fosse de maneira diferente. E vão existir sempre reflexões. E mudanças. Mudanças de desejos, de opiniões, de sentimentos. Porque tudo na vida muda. E aquilo que eu quero hoje, certamente, não será o que eu quero amanhã. Enquanto isso, vou sendo feliz.

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CARINA MAURÍCIO, a fotógrafa
É budista e conservadora-restauradora. É de riso e choro fáceis. Tem tanto de sensível, quanto de corajosa e lutadora. Adora fotografar, jogar ténis e viajar. Viciada em comida, é fã de comida italiana. Gosta de dormir, de café, de chocolate. Dançar? Pode ser a noite toda. Mas também gosta de ficar na ronha, em casa, entre filmes e pipocas. Adora o som da chuva a cair no inverno e o som do mar em dias de verão. Campos floridos enchem-lhe o olhar, assim como as cores das folhas do outono. Apaixona-se facilmente e é uma apaixonada pela vida. Uma geminiana pura.