Diamante de vidro

830
Fotografia © Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Há quem anseie por pedras preciosas, por rubis, esmeraldas e diamantes. Chega-se a matar por tais objetos de desejo e ornamentos de vaidade. No entanto, a mais valiosa das gemas que existe está bem mais ao nosso alcance do que qualquer uma dessas pedras. Apesar de ser de vidro, vale mais do que qualquer outra.

Não se encontra à venda em nenhum mercado, nem legal, nem negro. Não vale a pena escavar rocha ou peneirar areia. Será trabalho vão. Não procurem fora o que encontram dentro. Dentro do peito de cada um de vós.

O coração, tantas vezes ignorado, esquecido e maltratado, é a pedra mais preciosa que alguma vez possuíremos. É origem de vida e raiz de sentimentos. Ele, sopro de vida, sustentará a melhor e a pior das pessoas. Dele, espelho de  alma, emanará o mais belo e o mais horrendo dos sentimentos. Não há qualquer discriminação ou diferenciação. Todos temos direito a um e apenas um. Feito de vidro, o coração refletirá a tua energia, o brilho e a escuridão. Não é inquebrável que nem um diamante, mas tem a capacidade de se regenerar quando quebra.

Porque é que digo que o coração é a pedra mais valiosa? Porque nele encerra-se o mais nobre e mais belo dos sentimentos. O amor. É esta a razão pela qual o coração não tem preço, pela qual não está numa montra ao acaso e ao alcance de qualquer um que tenha o bolso recheado. Não se vende nem se compra, muito menos se troca. É pessoal e (quase) intransmissível. É apenas nosso. Por isso é que, quando, livremente, o oferecemos a alguém, quando finalmente temos a coragem para o fazer, estamos a oferecer o que de mais precioso temos. Colocar o nosso coração em mãos alheias é um risco, um desafio à vida. É um salto de fé. Estamos a dar poder a outro de o atirar ao chão e estilhaçar, de nos deixar o peito com um vazio imenso durante muito tempo.

A quem receber o meu coração só peço que trate com o devido cuidado tão frágil peça e que o guarde em lugar seguro e protegido. Que o cuide com a mesma estima que gostaria que o seu próprio coração fosse tratado. A quem o receber apenas peço que o guarde como parte sua, no calor do seu próprio peito até que, um dia, o reclame de volta. Ou não.

Coração, diamante de vidro, só cada um de nós sabe o valor que tem. Cabe a ti e apenas a ti cuidá-lo bem. Mesmo que o tenhas entregue, não te esqueças que continua a ser teu.

Comments

comments

PARTILHAR
Artigo anterior«E quem inventou o amor não fui eu. Não fui eu, nem ninguém»
Próximo artigo1 ano a desafiar a escrita! Parabéns!
ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.