Amar não pode ser isto: renegares o que sou!

Desafio de escrita: «Amar não pode ser isto»

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Fotografia © Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Ele dizia que a amava. Mas ele não sabia que desconhecia o que era o amor. Ela quis dizer-lhe, mas ele não a quis ouvir, por amor. Quando ela o olhou nos olhos, ele escolheu deambular os seus por onde o amor era só uma miragem. E, ao não encontrá-lo, perdeu-se e disse-lhe que a culpa era só dela. Ela, desolada por não encontrar os olhos dele, chamou-o pelo seu nome, mas ele ignorou todo o carinho que ele transportava. As lágrimas que ela não reteve foram o tapete estendido para a dureza pavonear-se com toda a sua excentricidade, enquanto ele estava crente de que falava de amor. Se ele soubesse o que era o amor, não usaria palavras barulhentas que nada diziam, e escolheria o silêncio, linguagem predileta do coração.

Ele contava-lhe histórias de maldizer, enganos, traições, com meticulosos pormenores, de cor e cheiro que ela não conhecia. Só no fim, percebeu que era ela a vilã e ficou muda de espanto. Não lhe conhecia o início, muito menos o seu fim. Ela teve esperança que aquelas histórias ficcionadas fossem substituídas pelo mais belo conto de encantar. A ingenuidade, da criança que um dia fora, traiu-a. Ele sorriu, convicto da sua verdade, e castigou-a com toda a arrogância que lhe apeteceu. E a dureza desfilou, mais uma vez, na passarela das excentricidades, com demasiada crueldade para ser real. Ele disse que a amava de uma forma que ela desconhecia. E ela acreditou.

Ele procurou o amor, onde a sua entrada estava interdita, recusando-se a aceitar a restrição. Ele não acreditava, quando ela lhe dizia que um amor é incapaz de sobreviver à escuridão. De novo, ele sorriu. E ficou a olhá-la, sem nada dizer que aplacasse a dor que os seus olhos acusavam. Ele amava-a, mas deu total desprezo ao medo que ela não escondia. E ela deixou que ele a amasse com o amor que só ele entendia. O amor doía demais para ser um amor verdadeiro.

Ele conhecia as palavras dos poetas porque sofria, com o descrédito pelo amor que não reconhecia em si e nos outros. Quando todo o seu corpo lhe mitigava que confiasse, a dor dilacerante corroía-o, e os olhos dela entristeciam porque o poeta falava de amor, mas ele negava-se a honrá-lo. Ele escolhia, então, as palavras que não eram as dos poetas, para a castigar dos seus infortúnios. Palavras que a deixavam assustadoramente desequilibrada.

Ele corrompia, sem remorsos, o que lhe chegava com verdade. Desconhecia que o amor não aniquila um coração que não usa armadura. Ele insistia em procurar o amor onde ela não o levava e o abatimento era demasiado denso para que ela articulasse uma só palavra. Já usara todas as que o seu coração lhe ditara, mas, porque ele a amava, não acreditava numa só.

Ele sofria, combativo, o amor que só em si vivia. Ela disse-lhe para baixar as armas e dispararem os sorrisos que, um dia, os unira. Ela deu-lhe a mão. Ele correspondeu enlaçando os dedos nos dela, porque ela era sua. Ele não quis saber do amor que se partilha, entre mãos que se dão, e escolheu dominá-la com a força do seu estranho amor.

Ele insistia em prender o amor que ela tanto desejava libertar, para que vivessem juntos o que tanto gostavam de sonhar, de olhos pousados um sobre o outro. Livres, o mundo podia tornar-se o infinito. Mas a corrente, que ele lhe pendurou ao pescoço, sufocou-a sem que a razão fosse o seu beijo apaixonado. O amor entristeceu com as condicionantes que ele lhe impôs, só porque sim.

Ele adulterava o amor que ela lhe entregava. Sem piedade. Destruiu a beleza do que ela lhe dava sem nada pedir em troca. O amor que ela lhe deu foi desmembrado, impedindo-o de mais alto chegar. A derrapagem continuada deixou ambos no sopé da montanha com que haviam sonhado. A montanha tornou-se uma miragem para dois seres perdidos que resistiam ao inevitável. Ele voltou a chamar os poetas. Mas eles nada lhe disseram que o seu coração pudesse compreender porque o amor dele não era o dos poetas. Então, desorientado, ele descobriu novos enredos para manipular a sua Julieta, transformada em marioneta, cabisbaixa com o seu triste fado.

O amor que ele gritava roubava impunemente a espontaneidade dos gestos e das palavras que ela ousava. O amor dela esvaiu-se e ele não teve coragem de olhá-la nos olhos. Ele pressentiu, pela primeira vez, a verdade. Ela já não o olhava nos olhos. O seu olhar perdera-se para sempre. Derrotado pelo medo, ele recusara a verdade e, agora, que o tempo de fazer do amor aquilo que ele é se esgotara, o estranho amor suplicou.

Ó se ele soubesse o que era o amor!…

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ANA SANTOS, a gaivota
A vida fez com que ousasse pegar numa caneta e num caderno e nele viajar pelo mundo das palavras escritas sonhadas. Primeiro a medo, depois com menos receio, deu por si a relembrar-se do prazer que já em criança sentia pela escrita. Com uma licenciatura em Físico Química, não causará estranheza que a natureza seja o seu porto de abrigo. Adora estar em contacto com a natureza e é nela que encontra algumas respostas para os seus desassossegos, sem se sentir culpada, mas sempre abraçada.