Amar não pode ser isto: a ausência total de respeito

Desafio de escrita: «Amar não pode ser isto»

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Fotografia © Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Amor, a doce palavra que anda de boca em boca. Amor, o brinde tão desejado, aquela promessa que sempre se faz quando se quer conquistar um coração.

Amor será o que vemos nos que passeiam de mãos dadas, olhando-se com ternura. Amor será aquele abraço que une corpo e alma num momento de paixão, lábios que se beijam, mãos que acariciam.

Amor será também o menino que brinca sob o olhar embevecido de pais atentos e carinhosos. Será o cuidado, a proteção, um sorriso, a palavra que conforta…

É o amor que dá sentido à vida. Dele nasce a união, a alegria de viver. Enfim, o amor será o belo, a perfeição.

No nosso quotidiano, com alguma frequência, a celebração do amor é visível nas mais diversas situações…

Naquele dia, aconteceu aquele jantar. As flores oferecidas traziam um toque romântico ao ambiente cuidadosamente preparado. Ela era alvo de carinhosas atenções, o que se tornava notório. Quando segurava nas suas as mãos dela, acontecia um beijo, um meigo olhar. Um tímido sorriso, um olhar vago e distante vinham como resposta. Ingratidão? Poderia parecer, sim. Quase involuntariamente, ela era traída pela sua memória. Quase sem o desejar, sentia-se a reviver mágoas e pesadelos.

Era do nada que surgiam as acusações infundadas, as insinuações maldosas. Seguiam-se as humilhações, as ameaças e as chantagens. Era a dor dilacerante de uma violação, a ausência total de respeito. Como que voltavam as dores sentidas no dia em que nódoas negras denunciavam a violenta agressão…

Mas, sim, mais uma vez, cedera ao pedido de perdão. Como sempre, este veio recheado de falsas promessas, doces palavras enganadoras:

«Amo-te. Não posso viver sem ti. Só quero o teu bem, a tua felicidade. Não sei como isto aconteceu… Dá-me uma oportunidade para te compensar. Agora, vamos viver a nossa vida com muito amor, tenho a certeza. O que mais desejo na vida é o teu perdão, o teu amor…»

Palavras ditas à toa, da boca para fora. Sem convicção, sem qualquer reação, apenas apavorada, ela cedeu. Assim, aconteceu o jantar. Tudo seria perfeito se não se tratasse de uma farsa, pura encenação. Agora, o lobo vestia a sua pele de cordeiro e mostrava como cobria de atenções aquela que — ele queria fazer acreditar — muito amava. Assim, a violência se mostra. Passeia-se ao nosso lado escudada por sorrisos e enganosas manifestações de amor.

Como é difícil desmascarar o agressor. Tão ardiloso ele se torna. Longe de desistir, ele vai reconquistando a sua vítima. Por ironia, usa o amor como arma, aperfeiçoa a sua arte de sedução. O medo, a insegurança e a desorientação estão sempre presentes e vão inibindo a vítima das suas capacidades. Ela não consegue denunciar, não consegue pedir ajuda. Por vezes, acontece que ainda se interroga: «Não terei que melhorar a minha conduta? Será que também tenho culpa?» Infeliz atitude, esta. Ela permite um escalar da violência e, porventura, um culminar desastroso e inesperado…

Ao abrir-se a porta, o menino espreita e corre para o pai que lhe estende a mão. O menino segura aquela mão numa atitude e com um olhar que pedem proteção. Algo correu mal, o pai foi informado da traquinice. Sim, traquinice não será o que se pode esperar de quem tem apenas seis anos? Todavia, algo correu muito pior… Aquele menino, que trazia um pedido no seu olhar, foi ali violentamente agredido a bofetada e pontapé!

Todos viram e ficaram paralisados pela brutalidade da situação. Havia lágrimas em muitos olhos. Foi feita uma denúncia. Estava levantada a ponta do véu. Via-se a ponta do iceberg. Foi assim, pela mão do menino que devia ser poupado a tamanho sofrimento, que se desmascarou o agressor!

Estas realidades existem. Podem viver ao nosso lado! Talvez ainda seja preciso fazer muito para que as vítimas sintam que podem ser apoiadas quando pedem ajuda.

O agressor promete sempre que vai amar… Amar não pode ser isto!

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Ela não é uma mulher rica. É, sim, uma rica mulher! É dona de um coração generoso, que já ultrapassou sofrimentos, mas também sabe muito sobre o amor. É sonhadora: os sonhos estão sempre lá e o seu percurso de vida foi-se construindo com a realização de muitos deles. Desafios? Sim, aceita-os com determinação e entusiasmo. E, como alguém disse, «às vezes, é uma caixinha de surpresas».