Quando a tua avó te deixa uma carta…

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Fotografia © Miesha Moriniere | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Miesha Moriniere | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Querida Miri,

Neste momento que te escrevo ainda me lembro de ti. Conheço o som dos teus passos enquanto corres na sala, a tua voz melodiosa quando cantas para mim, o cheiro de princesa da tua pele quando me abraças com os teus braços pequeninos. Sei que a minha memória me vai atraiçoar e não serás mais do que uma menina bonita que crescerá sem eu a conseguir identificar como minha. Para ti, o tempo que consigo dizer que te amo será indistinto e de certo que pensarás que… as lembranças que te vão surgindo foram apenas sonhos.

Sei que não morrerei amanhã nem nos anos próximos. Sinto-o com aquela capacidade, que tu também terás, de ver mais além sem sabermos bem como (herança da nossa raça de mulher). Mas a minha mente, sim. Ela, sim, vai perecer rapidamente. Muito mais rapidamente do que aquilo que desejaria. Mas porquê tristezas agora? Nem pensar! Passo já àquilo que interessa…

Não tenho bens materiais para te deixar. Durante os anos em que trouxe os meus sete filhos, incluindo a tua avó Isabel, do Portugal profundo, vivemos com pouco e fomos sobrevivendo à conta do trabalho duro e constante. Não existem joias, ouro, terrenos, nem dinheiros. Vivemos frugalmente, mas felizes. Depois do trabalho de todos nas minas de carvão, aprendemos que somos muito mais felizes se as preocupações de guardarmos muito não existirem.

Vive com abundância no que realmente importa e desfruta a vida.

Mas deixo-te coisas para mim muito mais importantes. Aquelas que, quando eu partir, não se gastarão e que, espero eu, te façam recordar o amor que sentiram por ti.

Deixo-te o amor pelas palavras, o talento para desfolhar páginas e extrair histórias que nos multiplicam a alma. Deixo-te a imaginação fértil que me ajudou a inventar histórias para te embalar o sono. Deixo-te a herança de anos de experiência, de luta, mas também vitórias.
Escreve, minha querida. Escreve tudo o que te vier à mente. Escreve as paixões e os desgostos, a vida e a morte. Escreve-me a mim numa caligrafia bonita e imortaliza-me numa página de papel. Sê feliz entre pontos e parágrafos, entre linhas e margem despidas. Enche os cadernos que puderes e faz disso a tua herança para o mundo.

Deixa-me viver mais um pouco no prolongamento da tua escrita.

Por último, deixo-te sentimentos. Amor, alegria, paixão, resiliência. Tudo isso te vai ajudar a suportar as curvas apertadas da autoestrada da vida. Segue à tua velocidade e desenha tu o mapa do teu destino. Peço-te só que me leves contigo no peito e me relembres com a força do sangue Fernandes que nos corre nas veias.

Lembra-me, minha filha, e sê muito, muito feliz.

Com amor eterno,
Avó Elvira

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MIRIAM AFONSO, a Mi
Escorpiã até ao tutano. Bem disposta e de sorriso fácil. Apaixonada pela vida e pelos outros. Prefere frio ao calor, chocolates a gomas e livros a sapatos. «Os Maias» são um bocadinho como a bíblia lá por casa e «O Principezinho» povoa cada espaço vazio nas estantes. É vizinha de um dos bairros mais bonitos do mundo - o do Amor - e escreve para se encontrar.