A vida não separa. A vida afasta.

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Fotografia © João Araújo | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © João Araújo | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

A vida não separa. A vida afasta. Não manda embora. Só ordena que seja esquecido. Acaba com a emoção e embrulha tudo numa recordação. Ninguém sai das nossas vidas. A nossa vida é uma porta sem saída. Quem aqui entra espalha tudo o que traz. Se nos conquista, fica e passa a fazer parte da nossa história. Quem nos atormenta nada acrescenta. Cai no alçapão do esquecimento. É arrumado numa gaveta chamada passado.

Todos os que passaram por nós foram desenhados pela mão da nossa realidade. Há traços de cada um deles no rosto do que somos hoje. Por muito que as recordações não sejam boas, estão lá as migalhas de tudo o que essa pessoa semeou na nossa vida.

Os momentos maus também nos ensinam. Quem nada nos deixou de bom foi um professor. O professor que nos fortaleceu e nos tornou mais resistentes aos maus momentos. A vida será sempre um ensinamento, uma lição que tiramos de cada momento. Temos tantos ensinadores, que somos obrigados a aprender de cada vez que um deles nos atira para o chão.

A vida não nos separa de ninguém, apenas nos afasta dos menos bons, daqueles que não têm capacidade de entender a nossa pureza. Dos que nunca saberão ler nas entrelinhas da nossa alma quem na realidade somos. Esses não nos fazem falta. Podem chegar, ensinar e de seguida partir. Só precisamos dos que todos os dias acrescentam vida à nossa vida.

Por isso, ainda penso em ti. Lembro-te a cada despertar. Recordo-te a cada adormecer. Nas manhãs quentes, em que me lembro do nosso amor. Nas noites frias em que me falta o teu corpo para me aquecer. Como se pode esquecer o que já foi nosso? Como se apaga do coração quem preencheu uma parte da nossa existência, como se fosse a nossa segunda pele?

Quando chegaste guardei-te no meu coração. Ele não tem portas, nem janelas. Quem nele entra já não sai. O teu lugar será só teu. Por isso, penso em ti, mesmo que já não faças parte dos meus dias. Quando a solidão me visita, embrulho-me na recordação que guardo de ti, e que me faz viver. Ela ajuda-me a gastar as horas, que sem ti parecem uma eternidade. A eternidade que eu sonhava que era só nossa.

Percebo agora que ela não passa pelas nossas vidas. Porque já não te sentas na minha mesa. Nem sequer adormeces na minha cama. Sobram-me os minutos que antes me faltavam. Agora, tenho tempo de sobra para pensar em ti.

Fico aqui presa ao passado, que já não volta mais. Amarrada à nossa história, que o meu coração todos os dias recorda. Uma história que não se apaga na linha do tempo. Na verdade, ainda ali existem as palavras que um dia me disseste e que são as peças do puzzle do nosso amor.

Nada mudou para mim. Tu não estás aqui, mas estarás sempre comigo. Há tudo o que o mundo me lembra diariamente sobre nós. Tudo o que o tempo não sabe e não quer apagar. A vida não nos separou. Ela só te afastou. Tu partiste. Eu não te mandei embora. Terei apenas que aceitar que já não estás comigo. Tudo o resto o tempo irá resolver.

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ANGELA CABOZ, a miúda gira
Nasceu em Tavira há 49 anos. Desde a adolescência que é uma apaixonada pela leitura, pela escrita, pelo cinema e pela música. Escreve sobre sentimentos e, nas palavras, reflete a maneira de ver e de sentir o mundo. Em 2014, realizou um sonho: a publicação do seu livro «À procura de um sonho». Desde então, tem participado em várias obras coletivas.