Sou de todas as cores

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Fotografia © Matthew Henry | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Matthew Henry | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Dizem-me que devia usar mais cor, que me visto de tons escuros, neutros ou básicos. Já não é de agora.

Às vezes, é uma questão de me sentir, simplesmente, confortável. Outras vezes, não tenho pachorra para escolher ou combinar peças. Quanto menos cores e padrões, menos dores de cabeça. Há cores de que gosto, mas que não gosto de ver em mim. Olho-me ao espelho e não me reconheço.

O que vos digo é que, se realmente se preocupam, procurem é saber se há cor dentro de mim. Já me vesti de preto quando esse preto espelhava o negrume que vivia cá dentro, mas também já o usei quando também a luz brilhava.

De que nos serve vestirmo-nos de arco-íris se, por dentro, reina a escuridão em nós? Não se deixem iludir tanto pelas aparências. A minha cor estará nos meus atos, no meu olhar, no meu sorriso. A minha luminosidade e energia vêm de dentro para fora e não o contrário. Hoje em dia, o meu coração veste-se de cor, de todas as cores. E é isso que importa.

Não se preocupem com aquilo que visto. Posso atrever-me de vez em quando, mas preciso das minhas cores neutras, básicas ou escuras, como queiram chamar. Eu chamo-os de tons sóbrios.

Não gosto de tons demasiado vivos. Não me identifico com eles. E digo-vos porquê. Porque, com os anos, apercebi-me de que os tons, que eu denomino de sóbrios, mantêm o meu equilíbrio. Sobriedade por fora para contrabalançar o turbilhão cá dentro. O turbilhão de pensamentos que se atropelam uns aos outros, de cenários reais ou ficcionados, possíveis e impossíveis. Sou inquieta, ansiosa. Os tons suaves, de preferência escuros, acalmam-me, aconchegam-me, confortam-me. Demasiada cor e brilho agita-me ainda mais o cérebro. Não é disso que eu preciso.

Deve ser por tudo isto que me sinto mais em paz em dias mais farruscos, nublados. Suavizam-me. Dão-me tranquilidade. Pois, por dentro, vivo encadeada por emoções e sentimentos, por um coração que bate sempre mais do que é aconselhável. Percebo que nem toda a gente o consiga entender, só usando o meu cérebro por uns dias. Eu mesma tenho dificuldade. Tenho vindo a decifrar-me ao longo do tempo e lá me vou ajustado àquilo que descubro. Mas não é fácil.

Tudo é uma questão de hábito. Pode ser que um dia inove nas cores. Pode ser que não. Para mim, o que faz sentido é ser fiel a quem sou, estar bem na minha pele e não tentar parecer outra pessoa qualquer só porque «toda a gente é assim». Ninguém é igual. Tenho o corpo e a aparência que tenho. Faço o melhor que sei. Podia fazer melhor, acredito. Sair da zona de conforto não é fácil, mas para mim, para já, basta o que basta. As conclusões que tiram da minha aparência já não são da minha responsabilidade. Na dúvida, perguntem. E já não falo só da cor da roupa.

As minhas cores estão no amor e na amizade. Estão naquilo que dou aos outros e que dou a mim. As minhas cores estão nestas palavras, na minha escrita.

Hoje, sou de todas as cores e isso é que deveria importar.

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ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.