Raça de mulher

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Fotografia © Alexey Kuzmin | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Alexey Kuzmin | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Dizia ele que o tempo não mudava nada. Pensava que a pele e o pontilhado, traçado na ponta dos dedos quentes, o fariam ser uma memória eterna. Pensou, enquanto se fazia de interessante e desprendido, que os suspiros dela seriam sempre seus. Que, quando pensasse naquela noite, seria para ele o primeiro pensamento, que seria o contorno do seu corpo, o sabor salgado dos beijos intensos que ela recordaria. E sorriria. E quer… eria mais.

Dizia ele que seria ela a querer mais, a pedir um retorno a momentos já passados a dois. Dizia tudo isto, enquanto lhe mentia no seu esquecimento e sentia a sua presença em cada canto da sala. Mas, no meio da sua noção temporal distorcida, esqueceu-se de algo importante — a raça de mulher que lhe tinha cruzado o caminho. E esse foi o seu maior erro.

Dizia ela que iria pensar nele, de certo, nas próximas semanas. Suspirava exasperada porque antecipava já os instantes de retrocesso aos cheiros daquela noite, aos movimentos dos corpos em sintonia, ao culminar de tanto tempo de sedução. Tentou fazer paz com isso e aceitar que ele viveria nela mais uns dias. Mas o tempo, o que tudo transforma, começou a apagar-lhe aos poucos os pormenores que contava terem vindo para ficar. A sequência de movimentos foi-se esbatendo. Teria sido ela ou ele a começar aquela dança? Fora presente dela o primeiro beijo? Ou inquietude dele? Era a voz dele no seu ouvido, no êxtase de se sentir fundido nela, ou a sua imaginação fértil a contar-lhe histórias?

Ao início, assustou-se com a sua capacidade de esquecimento. Pensou estar a enganar-se. A fingir uma capacidade de desapego que não conhecia. Mas os dias passaram, e, na roda viva da vida abundante que levava, encontrou-se como resposta.

Não precisava do retorno a ele para sentir o desejo à sua volta. Sentia-o em cada passada, no compasso das músicas à sua volta. Ele tinha sido brisa no calor imenso da sua unicidade de mulher-furacão. Era dela o poder de já não o querer. Ou querê-lo mais. Hoje, amanhã, no fim de semana em que os segundos se esgotam em languidez à beira mar. Querê-lo, ou não, mas sem apegos, sem expetativas, sem deveres ou questões. Sem esperar nada.

Raça de mulher poderosa, destemida, sem medo de querer apenas pelo desejo. A certeza de que era assim o melhor esquecimento de quem lhe visitara apenas o corpo, mas ainda não lhe tinha espreitado a alma. Aquele em que se desprendia do outro e se agarrava mais a si.

E fora assim, enquanto ele ensaiava um ar de desinteresse, que ela o tinha deixado para trás. Sem o negar, sem lhe aplicar o nunca, mas deixando-o apenas como vírgula numa frase em que desenhou, com uma pirueta, um ponto final.

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MIRIAM AFONSO, a Mi
Escorpiã até ao tutano. Bem disposta e de sorriso fácil. Apaixonada pela vida e pelos outros. Prefere frio ao calor, chocolates a gomas e livros a sapatos. «Os Maias» são um bocadinho como a bíblia lá por casa e «O Principezinho» povoa cada espaço vazio nas estantes. É vizinha de um dos bairros mais bonitos do mundo - o do Amor - e escreve para se encontrar.