Nem sabes o bem que me fazes

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Fotografia © Pixabay / Madalinlonut | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Pixabay / Madalinlonut | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Tens-me emprestado o teu ombro inúmeras vezes. Já sabes quando preciso dele. Por entre as batalhas sucessivas que se apresentam no meu caminho, por entre a saúde que cede à tensão, por entre os meus cenários pessimistas, sempre à espera do pior, à espera do próximo ataque, estás tu.

Chegaste no meio da tempestade e, por entre ventos ciclónicos que tudo abanam, manténs-te estóico ao meu lado, ouvindo os meus desabafos e soprando palavras de alento. Às vezes, receio que te canses e que te vás embora. A minha vida, que tantas vezes enjoaria de tédio de tão monótona que era, não pára de se inquietar. Esta montanha russa não tem paragem.

Por entre um miminho para descontrair-me ou uma canjinha para melhorar, estás sempre tu. Queres saber se o dia correu bem ou se a febre já não me assola, se comi bem ou se trabalhei madrugada dentro. Puxas-me as orelhas, muitas vezes com razão. A tua preocupação, sempre presente, faz-me sentir que importo. Que existo. Faz-me acreditar que tudo ficará bem.

Ainda um dia destes, abraçada a ti, agradecia em silêncio, a Deus ou à vida, pelos nossos caminhos se terem cruzado. Numa altura em que já tudo deixara de ter interesse para mim, em que só me apetecia baixar os braços e deixar-me levar, surgiste tu para me dar razões para lutar, para ficar. Fizeste-me ver que havia mais pelo que continuar. Acima de tudo, por mim. As forças, essas, iria encontrá-las pelo caminho.

Estou cansada. Tenho medo. Nem sei se estou no rumo certo. Acho que ainda não. Pelo menos, não o sinto. Mas não sei quantas mais tempestades suportaremos até lá chegar, nem sei se algum dia chegará a bonança.

Sinto que tenho que viver com as defesas sempre armadas, que não posso baixar a guarda, mas dava-me jeito. Preciso de parar. Repor as energias. Preparar-me para o que se segue. Mas não há tempo.

Sei que tudo fazes para que mantenha os pés bem assentes na terra e para que não me deixe abalar, para que não desista. Felizmente, a tua existência traz-me alento. Sei que, ao fim do dia, tenho os teus braços para neles me refugiar. Por mim, lá ficava até o tempo deixar de o ser. É onde me sinto melhor. Nos teus braços.

Nem sabes o bem que me fazes. Tu. E  amor que te tenho.

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ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.