Sossego

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Fotografia © Allef Vinicius | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Allef Vinicius | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Sossego quando creio que a mão divina pousa sobre o meu ombro para me cobrir de amor. Desassossego quando os meus joelhos se dobram num esvair de forças impossível de conter.

Sossego no abraço dos meus filhos, impenetrável, porque é inabalável. Desassossego quando a distância me afasta de quem eu espero.

Sossego quando me sento sem ficar. Desassossego por me ver ficar sem nada fazer por aquilo que me faria levantar.

Sossego quando vejo o que olho. Desassossego quando quem me olha despreza o que vê porque não acredita.

Sossego quando te escrevo o que não digo. Desassossego quando a saudade te traz de volta, sem eu querer.

Sossego quando o vento me acaricia, sem nada exigir em troca. Desassossego quando quem sou não é motivo suficiente para te manteres perto de mim.

Sossego quando olho o mar que me acolhe sem negar um abraço. Desassossego quando a sua rebentação me atira para longe do seu colo, ignorando a dor que me causa a sua indiferença.

Sossego quando as palavras, vestidas de simplicidade, se transformam em sorrisos francos. Desassossego quando a dúvida carrega a mais pura das intenções, manchando o que não é questionável.

Sossego quando o silêncio me promete que o melhor está para chegar. Desassossego quando o som de passos sem rosto me faz lembrar que ainda há muito para caminhar.

Sossego quando inspiro e expiro e o ar, ora capturado, ora desfeito, faz-me acreditar no poder que mora em mim. Desassossego quando o coração bate compassado numa derradeira tentativa de dar cadência ao que me sufoca.

Sossego desfalecida pelo cansaço que honra o que faço com verdade e alegria. Desassossego em desânimo crescente por quem não acredita na minha lealdade.

Sossego quando tomo conta do tempo e tudo é possível. Desassossego quando hesito no rumo que me empurra para onde eu nada conheço.

Sossego quando o céu azul me garante que o mundo é infinito. Desassossego quando a mesquinhez domina do alto da sua pequenez.

Sossego quando a paz me invade só porque a vida está presente em mim. Desassossego quando as razões em mim não bastam para que a esperança perdure.

Sossego quando o canto do pássaro faz eco em mim fazendo renascer a vontade louca de voar. Desassossego quando estremeço porque a incerteza me domina, estilhaçando o meu coração.

Sossego quando deixo que o toque dos raios de Sol me transportem para o lugar mais lindo, onde a paz é rainha. Desassossego sob a nuvem que escurece o que o meu olhar alcança.

Sossego quando a música combina as notas musicais, em compassos deslumbrantes, para aplacar o que em mim desperta. Desassossego quando o frio toma conta de mim, embora a manta de lã me cubra diligente.

Sossego quando sinto a gratidão pelo que em mim vive, sem penas do que não sou. Desassossego, tristemente, quando esqueço que num estalar de dedos posso ser surpreendida.

Sossego quando a noite cai, branda, indiferente ao desassossego de quem não desiste de acreditar que o dia seguinte é para ser vivido, sossegadamente, em desassossego.

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ANA SANTOS, a gaivota
A vida fez com que ousasse pegar numa caneta e num caderno e nele viajar pelo mundo das palavras escritas sonhadas. Primeiro a medo, depois com menos receio, deu por si a relembrar-se do prazer que já em criança sentia pela escrita. Com uma licenciatura em Físico Química, não causará estranheza que a natureza seja o seu porto de abrigo. Adora estar em contacto com a natureza e é nela que encontra algumas respostas para os seus desassossegos, sem se sentir culpada, mas sempre abraçada.