Ao meu pai

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Fotografia © Negative Space | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Negative Space | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Hoje, partiste. Sem me avisares ou sequer pensares em despedir-te.

Tudo aconteceu demasiado depressa e, quando dei por mim, percebi que nunca mais voltaria a ver esses teus olhos escuros que me abraçavam sem tocar. A irrealidade de tudo isto envolveu-me formando uma concha à minha volta. Os rostos familiares que me rodeiam nada me dizem e a sensação de que bastaria um carinho teu para acordar deste pesadelo mantêm-se durante dias.

Espero-te, pacientemente. Mas tu não vens… nem nunca mais virás.

Olho para o objeto à minha frente e não o reconheço. A fotografia pousada na entrada é a tua, mas a minha mente recusa a assimilar a situação. Tu não estás ali e eu não estou aqui. Tudo isto não passa de uma ilusão macabra da minha mente, não é?

60 segundos. Foi este o tempo que tive para voltar a sentir a realidade a entranhar-se no meu corpo. Agora, que já não te posso tocar e que nunca mais verás o sol, é que entendo que tudo é verdade. Aquele eras tu e aquela era eu. As palavras vãs de condolências são dirigidas a mim e o meu olhar é o que compadece estas pessoas. Foste mesmo embora, não foste?

Preciso de chorar, eu sei… Mas o vazio, cheio de solidão e saudade eterna, é muito mais profundo do que meras lágrimas perdidas num rosto marcado pela tua ausência.

Fujo das vozes que me rodeiam e albergo-me num espaço em que o silêncio exalado pelas paredes brancas me protege do terror de estar acompanhada por outros sem seres tu. Inspiro lentamente e vem até mim o teu cheiro característico, a tabaco e a vida, provenientes de recordações infantis.

Enquanto caminho, descalça e apreensiva, por este chão de mármore gelado, as recriminações enchem a minha mente. Devia ter-te dito mais vezes que te amava? Devia ter-te abraçado com mais força? Agarrado mais vezes a tua mão? Guardar-te com mais cuidado para que nunca me deixasses?

O meu coração torna-se pesado de culpa e finalmente as lágrimas teimam em sair. Não de dor ou saudade, mas de raiva contra mim própria por não te ter protegido como fizeste comigo a vida inteira. Merecias mais! Choro compulsivamente e deito-me no chão, enrolada sobre mim própria, enquanto canto baixinho a tua música preferida. Exausta de emoções, deixo-me cair num sono profundo onde tu passeias entre sonhos.

— Sai daí! Ainda te vais aleijar! – Disseste com ar zangado.

— Não vou, não vou! Eu quero subir lá acima! – Respondi-te eu com a voz mais meiga que conseguia. Não queria que me viesses buscar e aquele ovo de pássaro lá em cima estava mesmo à espera que a minha mão rechonchuda o apanhasse.

— Mas tu não percebeste que está demasiado longe? Vais escorregar e cair!

Ignorei a tua frase, desconhecendo ainda que conseguias ver mais que eu. Devia ser por seres mais alto.

— Estou quase l… – A minha última palavra perdeu-se no ar. O meu pé escorregou na resina da árvore e eu caí desamparada na relva fofa do quintal. Olhei primeiro para ti antes de chorar, com medo que dissesses «Eu bem te avisei», mas a tua cara de preocupação era tanta que eu percebi que estavas tanto ou mais aflito do que eu e, por isso, dei azo à choradeira.

— Pronto, pronto. Já passou. – A tua voz soava aliviada e paciente por veres que eu estava bem. Passavas-me a mão pelo cabelo e beijavas-me a testa de maneira suave. Senti o calor do teu corpo e senti-me feliz por estares ali comigo. Abracei-te com força e sequei as minhas lágrimas no tecido áspero do teu casaco, enquanto me levavas ao colo para casa.

Verão. Um calor abrasador e eu com os calções e a t-shirt de que mais gostava. Saí de casa a correr e aspirei o ar puro que uma terrinha tão esquecida me oferecia. Sabia que era dia de diversão, porque já te tinha visto a encher as braçadeiras para irmos para a barragem.

— Despacha-te, querida! Senão, quando lá chegarmos, já é de noite!

— Vamos de mota? Sim, sim, sim? Por favoor! – Sorriste perante a minha insistência e explicaste-me devagar que éramos três e que não cabíamos. — Podia ir ao colo do Flávio…

A tua gargalhada soou pela rua toda e até a vizinha da frente interrompeu a sua jardinagem para olhar na nossa direção. Só eu mesmo é que ainda acreditava que três pessoas cabiam numa mota. Como era tudo tão simples.

O Flávio veio em meu auxílio e prontificou-se a ir de bicicleta até à barragem. Assim fazia exercício, dizia ele. Eu sabia que ele só dizia aquilo para me agradar. Mas não disse que não, apesar de saber que ainda tinha que pedalar muito. Ou isso, ou queria ganhar músculo para mostrar àquela rapariga que olhava muito para ele lá na escola.

— Está bem… então, assim podemos ir!

— Ena, ena! — Gritei com um sorriso de orelha a orelha, correndo para ti e depositando-te um beijo na bochecha, rugosa da barba.

Puxaste-me para cima da mota e com um barulho surdo ligaste-a, começando a marcha. Como o Flávio ia à frente de bicicleta, todo o passeio foi feito lentamente e eu apreciei cada minuto. Enquanto sentia o teu corpo junto ao meu e abraçava com força a tua barriga, com medo de cair, deliciei-me com os pontos na paisagem que tu me mostraste. Pensei que estarias para sempre comigo. Até hoje está gravado na minha mente aquele momento, em que partilhaste comigo mais do que apenas palavras vãs, gravado na minha pele.

As pessoas olhavam-nos e eu sabia porquê. Tu estavas mais bonito do que nunca, sofisticado e com um ar feliz e orgulhoso e eu vestia o vestido branco mais bonito do mundo. O meu vestido de noiva. Levaste-me pelo braço, percorrendo comigo a passadeira vermelha que me levava até àquele que cuidaria de mim agora. O teu braço foi-se tornando cada vez mais apertado e eu soube que me dizias sem falar que me amavas.

— Está entregue… Disseste enquanto apertavas a mão do meu futuro marido e as lágrimas assomaram aos meus olhos.

Beijaste-me com ternura e afastaste-te, dando-me o meu momento.

Acordei embalada pelas tuas memórias e estranhamente sorria. Como poderia sorrir quando tu havias acabado de partir para sempre?

Senti paz e a certeza de que agora descansavas. Que os sofrimentos passados em vida finalmente tinham sido apagados e que nunca mais voltarias a sentir dor. As recordações vivas que tenho tuas, do som do teu riso, do toque da tua mão, da tonalidade da tua pele, são pedras preciosas que vou guardar sempre e que te manterão vivo junto a mim por mais anos que passem. Tu garantiste isso ao ensinar-me a viver, a amar, a querer e a escolher. Foste o meu guardião e mentor e viverás por mim, quando, em cada frase, em cada respiração, a tua influência se refletir em mim.

Sei que não estás em nenhum domínio espiritual e sei também que não me consegues ouvir, mas isso acalma-me. Estás simplesmente a dormir.

Por isso, penso baixinho quando te agradeço mentalmente tudo o que me deste e aquilo que foste e ainda és para mim. A saudade será eterna e a dor reaparecerá novamente, mas eu espero apaziguá-la, garantindo que serei a mulher que tu gostarias que eu fosse.

Por tudo, obrigada.

Até um dia, Pai!

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MIRIAM AFONSO, a Mi
Escorpiã até ao tutano. Bem disposta e de sorriso fácil. Apaixonada pela vida e pelos outros. Prefere frio ao calor, chocolates a gomas e livros a sapatos. «Os Maias» são um bocadinho como a bíblia lá por casa e «O Principezinho» povoa cada espaço vazio nas estantes. É vizinha de um dos bairros mais bonitos do mundo - o do Amor - e escreve para se encontrar.