Pedaços da minha infância

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Fotografia © Skitter Photo | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Nos meus tempos de infância era tudo tão diferente. Não que seja muito velha, mas a vida está a mudar a uma velocidade estonteante. Não revejo as minhas vivências nas crianças de hoje em dia. A educação que se dá é muito diferente e está baseada em outros valores. O acesso à informação e às tecnologias mudou drasticamente. Não que seja melhor ou pior. É diferente.

Acredito que a forma como fui educada e o facto de ter vivido no campo deu-me habilidades e aprendizagens que as crianças de hoje em dia não adquirem assim tão facilmente.

Lembro-me de, com os meus 6 aos 9 anos, sair da escola primária por volta das 15h e ainda ter um grande dia pela frente. Depois de fazer os trabalhos da escola, e as tarefas domésticas, ainda me restava tempo para brincar.

Eu e as minhas irmãs, desde esta altura, fomos habituadas a fazer de tudo em casa, a limpar, a tratar das roupas, a cozinhar, a tratar dos animais. Tínhamos porcos, coelhos, galinhas… Assistíamos e ajudávamos na matança desses mesmos animais. E não tínhamos pesadelos por isso. Era assim, e ainda bem que tínhamos que comer.

Aos fins de semana íamos para a fazenda ajudar no que fosse preciso. Apanhar fruta, legumes ou lenha. Foi assim que aprendi a vindimar, a apanhar maçãs, pêras, feijão-verde ou tomate. Íamos também apanhar lenha, que amontoávamos da vinha podada, para depois a minha mãe acender o forno para cozer o pão.

Esse que era feito aos sábados à tarde, como uma espécie de ritual. E era o dia preferido da semana. Pois para além do pão, que comíamos com manteiga e açúcar louro a derreter, o jantar também era feito no forno de lenha. E sabia tão bem. A comida nesse tempo tinha outro sabor. Recordo também as maçãs reinetas assadas com vinho do porto.

Nestas tardes não faltavam os jogos de cartas em família. Lembro-me de ir à única taberna da terra comprar rebuçados, com umas moedas de escudos, para jogarmos ao rebuçado. E depois era ver quem conseguia arrecadar mais guloseimas. Parece que ainda oiço o meu avô a dizer: «Mata! Mata!» Com a maior carta que tivesse para apanhar aquela rodada…

E a época das vindimas? O convívio que era vindimar, aqueles petiscos que se comiam às dez da manhã, as anedotas que se contavam. Lembro-me de estar no lagar, descalça, a esmagar as uvas, e da impressão que era pisar os cachos. E também de entrar nos depósitos gigantes, para os lavar, porque só eu conseguia passar pela pequena entrada que estes tinham.

Gostei muito da minha infância. Apesar do quanto trabalhava, era feliz. Tenho plena consciência de que o facto de, hoje em dia, ser trabalhadora, responsável, independente e desenrascada deve-se à minha educação. Para além disso, a família era unida. Fazíamos atividades todos juntos, longe de pensar nas tecnologias de hoje em dia. E, além das minhas irmãs, tinha imensos primos para brincar. Tínhamos uma capacidade de improvisar brincadeiras, num mundo criativo de crianças, que nem vos passa pela cabeça. Aliás, já vos contei aqui.

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CARINA MAURÍCIO, a fotógrafa
É budista e conservadora-restauradora. É de riso e choro fáceis. Tem tanto de sensível, quanto de corajosa e lutadora. Adora fotografar, jogar ténis e viajar. Viciada em comida, é fã de comida italiana. Gosta de dormir, de café, de chocolate. Dançar? Pode ser a noite toda. Mas também gosta de ficar na ronha, em casa, entre filmes e pipocas. Adora o som da chuva a cair no inverno e o som do mar em dias de verão. Campos floridos enchem-lhe o olhar, assim como as cores das folhas do outono. Apaixona-se facilmente e é uma apaixonada pela vida. Uma geminiana pura.