O coração

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Fotografia © Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

O coração batia descompassadamente, num balanço desassossegado, difícil de domar. Tudo o que já fora vinha frenético contra si. Era demasiado para que se sentisse capaz de conter tão intempestiva avalanche do que já não ocupava lugar no seu íntimo, mas, ainda assim, teimava em retornar. O coração negava-se a ser sensato e contorcia-se num movimento intranquilo que lhe roubava o tempo de apenas ficar. Ficar, sem nada esperar. Ficar e serenar. Ficar e deixar tocar em si apenas o que acalmava o seu ser. O vento, única companhia daquele coração só, soprava numa correria desenfreada e ruidosa roubando-lhe o equilíbrio que o mantinha a salvo das emoções mais tontas. O lugar de onde provinha aquele vento, o coração desconhecia. Apenas reconhecia em si que a sua coexistência era inquietante e desconcertante por ser supressora da paz que desejava.

O coração alternava o seu movimento entre a contração dolorosa e contrafeita, pelo que em si permanecera depois do que já não era, e a descontração tranquila, pela confirmação incontestável de que tudo acontecera por culpa duma escolha. E escolher é sempre uma dádiva. A contração dos seus músculos deixavam-no sustido pelo que o atingira dolorosamente, desfazendo os sonhos que ousara sonhar. O coração contraia-se com a dor de sentir o que nunca desejara para si. Já passara tanto tempo. Estava a ser piegas. Talvez a culpa fosse apenas daquele vento ensurdecedor que parecia divertir-se em afligi-lo. O pobre coração sentia-se esmagado e o vento rodopiava roubando-lhe o ar que se escapulia, sedento de si mesmo. Doíam-lhe os músculos da contenção do que era só uma memória que, provocadoramente, teimava em ficar. Pobre coração! Estava preso ao que não lhe pertencia porque nunca fora seu. A descontração que brevemente o tomava era curta, demasiado curta, e a ilusão do que julgara ser um presente dera lugar à contração porque, nada, fora apenas o que ficara em si.

A contração deixava-o cingido a memórias esvaziadas daquilo que, um dia, o fizera sorrir por nada, sem que uma razão importasse. A descontração temporária trouxera-lhe o Sol que lhe preenchera a alma com o calor reconfortante que só dele emana. A paixão que arrebatara aquele coração ingénuo deixou-o em contração prolongada quando se viu confrontado com o descrédito que sobre si recaiu. Como gostaria de voltar a deixar-se descontrair para não dar conta do tempo passar.

O coração contraia-se saudoso dos tempos em que os seus movimentos não se regiam pela racionalidade. Dera-se, então, a si mesmo o direito de se levar pelas emoções sem se forçar a pensar nas consequências dos seus atos. Acreditara na beleza e transparência das suas emoções e isso só servira para se sentir empolgado com a grandiosidade do momento. Agora, restava-lhe apenas relaxar e descontrair o seu músculo cansado, libertando-o do que fora apenas lirismo.

O coração contraia-se, involuntariamente, com as lembranças de tudo o que um dia lhe encheu o peito porque, simplesmente, acreditou na genuinidade do que a si chegava. Descontraiu quando se lembrou dos seus princípios sem que, alguma vez, lhe tivesse ocorrido a intenção de os negar. Eram invioláveis porque era inquestionável o seu valor. Nada os suplantava porque o coração era único.

A contração deixava-o paralisado incapaz da mais pequena iniciativa. O mundo movia-se autómato, aos seus olhos, desprovido de cor, num ritmo lento e pachorrento. O silêncio aprisionava o coração no peito, esmagando o que nele teimava em resvalar. A descontração tardava em chegar e o coração cedia, sem querer, à tristeza desbotada que o invadia. O vento voltou a rodopiar e as notas musicais que lançou roubaram ao coração a atenção de tudo o que queria esquecer.

A contração magoada era tão intensa que as lágrimas desfilaram com aprumo para expulsar a dor que em si se escondia. A liberdade que sentiram levou consigo a tristeza e um pouco de descontração devolveu ao coração a paz perdida. O coração serenou, a água que de si brotara levara consigo todas as impurezas que manchavam o seu mais sincero querer. Largá-las permitiu-lhe renovar a esperança de que, em algum lugar, outro coração batesse em sintonia, sem o maltratar. O vento rodopiou e saltitou procurando contagiar o triste coração a fazer o mesmo. Mas o coração estava sem disposição para aventuras disparatadas.

O coração voltou a contrair-se, confuso com a desorientação que o levava para lado nenhum. Outros cruzavam-se com ele, alheios à falta de rumo que o deixava às voltas num movimento viciado que o obrigava a retornar sempre ao ponto de partida. Recusava-se a voltar atrás. Nada restara, apenas a dor do que não chegara a ser. O coração descontraia-se, de novo. Lembrava-se das mãos enlaçadas, mas, rapidamente, o coração contraiu-se quando compreendeu que se deixara cegar e ignorado os sinais. O vento amainou e o coração recuperou, sem esforço, a sua candência harmoniosa. O coração respirou e o vento fluiu suavemente. Ambos envolveram-se num balanço suave, sem nada esperar. E, ficaram.

O sangue afluiu borbulhante, ao longo do caminho que o levava até ao mais íntimo do seu ser: o coração. Ali, a verdade imperava. E isso deixou o coração em paz. A verdade era sempre o que mais importava. O coração sabia que, naquele lugar, não se deixaria iludir com imagens que eram apenas reflexos de sonhos antigos que já haviam deixado de fazer sentido há demasiado tempo. Ali, o coração sentia-se acolhido. Com a verdade, vento algum o derrubaria. O coração voltou a bombear o sangue e a contração já não doía. O relaxamento trazia-lhe o encanto do silêncio que tudo eleva.

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ANA SANTOS, a gaivota
A vida fez com que ousasse pegar numa caneta e num caderno e nele viajar pelo mundo das palavras escritas sonhadas. Primeiro a medo, depois com menos receio, deu por si a relembrar-se do prazer que já em criança sentia pela escrita. Com uma licenciatura em Físico Química, não causará estranheza que a natureza seja o seu porto de abrigo. Adora estar em contacto com a natureza e é nela que encontra algumas respostas para os seus desassossegos, sem se sentir culpada, mas sempre abraçada.