A dor da mudança

2255
Fotografia © Jaie Miller | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Jaie Miller | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Existe uma razão para evitarmos a mudança. É o facto de sabermos que vai doer. Podemos não saber exatamente como, mas sabemos que vai doer.

Por mais que desejemos a mudança, adiamo-la. Porque sabemos que causará danos e feridos pelo caminho, independentemente da forma como o façamos.

Por mais voltas que demos à cabeça, por mais que se planeie tudo de forma a ter o menor impacto possível, não só para nós, mas para quem nos rodeia, quando ela chega, a mudança, tudo pode fugir-nos ao controlo. Porque, por entre o medo do desconhecido e a ansiedade provocada por todos os ses, trocamos os pés pelas mãos e nada corre como previsto. Atropelamo-nos, se tal é possível, com a nossa própria trapalhice nos ziguezagues do novo caminho que se abre.

Não temos como prever todas as consequências. Não temos forma de as adivinhar. Não temos. Ponto. Não vai agradar a todos. Queremos minimizar as nossas perdas, mas, muitas vezes, são inevitáveis, porque não controlamos todas as variáveis do processo, porque não controlamos o que outros pensam ou decidem. Somos apenas responsáveis pelo que dizemos e fazemos. Não pela forma como os outros o interpretam.

Ouvimos todas as opiniões, tentamos pesar os prós e contras, mas não vale a pena. Chegamos ao ponto em que a nossa cabeça ameaça explodir com o coração a pulsar lá dentro, tum, tum, tum, enquanto ouvimos as vozes divergentes e os eventuais cenários disparam na nossa mente em catadupa. Só queremos dizer: parou! Rewind. Não era assim que era para ser. Deixam-nos respirar.

Sentimo-nos encostados à parede, com a faca apontada ao pescoço, e só queremos desistir. Voltar atrás. Queremos travar a mudança e voltar ao nosso velho conhecido, o passado. Porque, se não aguentamos a dor da transição sem termos vontade de nos encolhermos num canto escondido, questionamo-nos como conseguiremos encarar o que nos espera do outro lado da mudança.

Mas não há travão para isso. A mudança foi despoletada. O gatilho já disparou. Só restam vestígios da pólvora.

No fim de contas, sei que continuo a lutar pelo que não quero, para sobreviver neste mundo. Suspiro, encolho os ombros e penso: “Pois…” Pode ser que um dia chegue lá, mesmo que não consiga ver como. Por agora, o caminho é em frente. Talvez.

Enquanto as lágrimas me ardem nos olhos, só me apetece dizer palavrões, e outras coisas que tais que não posso dizer aqui.

Estou cansada e ainda aqui vou.

Fosga-se, é bom que valha a pena!

Comments

comments

PARTILHAR
Artigo anterior(Não) Ser filho único
Próximo artigoObrigada, vida!
ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.