Um rei sem coroa

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Fotografia © Caroline Hernandez | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Caroline Hernandez | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

De manhã, antes de sair dos seus aposentos, ele põe a capa sobre os seus ombros e ajeita a coroa sobre a sua régia cabeça. Dá um passo em frente, respira fundo, e enfrenta o mundo. Ele tem um reino para reinar.

Tem um reino por governar e súbditos para proteger. Sente ser sua obrigação prover para que nada lhes falte. Sente que os tem que defender de qualquer inimigo, que tem que lhes dar a mão quando caírem. É sua obrigação ensinar-lhes a encarar um obstáculo. É seu dever mostrar-lhes como podem lutar por eles e pelas suas vidas, caso um dia já não os possa ajudar.

Admiram-no. Olham-no como referência, como exemplo. Veem-no como guerreiro, como herói. Ele é o seu porto seguro. E é por isso que o futuro do seu reino depende muito de si. Pelo menos, é nisso que acredita. Mas isso pesa-lhe nos ombros.

Quando sozinho, desarma a pose e tira a sua máscara forte. Esperam tanto dele, mas tem tantas dúvidas. Às vezes, também gostava de ter a quem recorrer, a quem pedir apoio. E se falhar na sua missão? Não fora para isso que a vida lhe concedera a graça de lhe oferecer tão rico e precioso reino. Pequeno, mas imenso.

Tem dias em que gostava de ser apenas um mero plebeu, de não ter tanta responsabilidade. Poder caminhar pela vida invisível, sem ter tantas mãos a puxarem-lhe pelas vestes e vozes a chamar por si. Todos a pedirem-lhe ajuda ou a solicitarem-lhe um bom conselho. Como se ele fosse o mais sábio dos habitantes daquele reino, o mais infalível. Mas não se sente assim. Há momentos em que também ele queria ter um rei por quem chamar.

Tenta esconder sempre o seu próprio sofrimento. Jamais mostrar uma lágrima em público. Jamais vacilar. Jamais hesitar perante um desafio. Esperam tanto dele. Inspiram-se nele.

A sua missão tem tanto de inglório como de recompensador. E, apesar de tudo o que lhe é exigido e apesar do seu cansaço, tem orgulho do seu legado. Tem orgulho naquilo que tem alcançado. Sabe que fez o seu melhor com o que sabia em cada momento. E também sabe que nem sempre acertou.

Alguém pede pela sua presença, interrompendo os seus pensamentos. Não há dia ou noite na sua vida em que a qualquer hora não possam ser exigidos os seus serviços. Recompõem-se e enfrenta novamente o seu reino para além da porta do seu quarto.

Do outro lado, dois fiéis súbditos, e seus grandes admiradores, anseiam pela sua presença. A mais nova, para que brinque com ela. O mais velho, para que o ajude nos trabalhos de casa. A sua missão é nobre.

Ele é rei, sem coroa.

Ele é guerreiro, sem arma.

Ele é herói, sem nome.

Ele é pai, sem certezas. Mas com amor.

Ele é pai, e sente-se honrado por isso.

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ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.