O Medo

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Fotografia © Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

O medo é avassalador. Quando chega toma conta, por inteiro, de tudo o que não lhe pertence.

O medo não tem boas maneiras e vangloria-se disso.

O medo não se compadece com a fragilidade da dor e a sua prepotência potencia a mágoa e o sofrimento.

O medo usa uma máscara medonha e aterroriza os que não têm fé.

O medo causa paralisias que só uma imensa força combativa as reverte.

O medo tolda o pensamento, piora ainda quando aguça a sua criatividade.

O medo manipula, quando faz acreditar que não vale a pena o esforço para fazer de modo diferente.

O medo bloqueia a clarividência, tornando a eminência de uma avalanche numa certeza.

O medo dilacera o coração atraiçoado pelo amor.

O medo é um ladrão maquiavélico quando rouba o bom senso para dar primazia ao absurdo e à incongruência.

O medo cede à cobardia dos que humilham com maledicência.

O medo causa desvarios demolidores das mais puras intenções.

O medo alimenta-se de histórias onde a verdade foi engolida pelo enredo mais empolgante. As multidões deliciam-se com os pormenores.

O medo fragiliza o ténue equilíbrio dos que não acreditam no poder que em si habita.

O medo povoa a escuridão onde a esperança não é achada.

O medo é o guarda-costas dos que não ousam ser livres.

O medo é a lapa que devora quando o apego não deixa ir o que não lhe pertence.

O medo inspira multidões que lhe atribuem a culpa de todos os males que as martirizam. As multidões unem-se para corroborar que o medo é intransponível. E, resignadas, oferecem-lhe vassalagem, convictas da sua pequenez.

O medo conspira para oferecer a vitória ao primeiro desistente.

O medo é levado em braços pelos vencidos que ignoram a voz gentil que, dentro de si, lhes diz que o medo é ilusório.

O medo é o fosso que separa o possível do inatingível.

O medo é obstinado quando recusa aceitar que há um caminho que dele se afasta.

Venturosos os que, depois de tantos golpes sofridos, alcançam que o medo é volátil sob o calor da alma, único supressor do seu sustento.

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ANA SANTOS, a gaivota
A vida fez com que ousasse pegar numa caneta e num caderno e nele viajar pelo mundo das palavras escritas sonhadas. Primeiro a medo, depois com menos receio, deu por si a relembrar-se do prazer que já em criança sentia pela escrita. Com uma licenciatura em Físico Química, não causará estranheza que a natureza seja o seu porto de abrigo. Adora estar em contacto com a natureza e é nela que encontra algumas respostas para os seus desassossegos, sem se sentir culpada, mas sempre abraçada.