«Não tenho medo de morrer»

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Fotografia © Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Pixabay | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

A morte. Acho que, em relação à morte, durante muito tempo, tive sorte. Tive sorte porque os meus avós viveram todos até aos 80 e tal ou 90 e tal anos. Tive sorte porque os meus amigos foram saudáveis, os amigos dos meus pais foram saudáveis, não houve acidentes, nada de inesperado.

Durante muito, muito tempo, a morte não me afetou. Pelo menos, dessa maneira. Não conhecia ninguém de quem gostasse que tivesse morrido.

Por outro lado, sempre tive um medo horrível da morte. Ainda pequena lembro-me de ter arrepios quando, pela primeira vez, pensei: Como é que será morrer? E a resposta apareceu, instantânea e avassaladora: é como se nunca tivesses existido. Naquele momento senti os primeiros desses arrepios que me iam acompanhar durante muito, muito tempo.

A pessoa que me fez mudar isso foi o meu marido. Quando lhe perguntei: «O que fazes quando pensas em morrer?» E ele: «Não penso nisso.» Problema resolvido. Nunca mais pensei ou imaginei como seria morrer.

Fujo da morte. Fujo da morte de todas as maneiras que posso.

Por exemplo, fugi da morte quando vi a minha avó morrer aos poucos, numa cama em sua casa, depois de ter vários AVCs, coisa que não fazia ideia o que era. Até que a minha avó estava a comer muito bem conosco e, às tantas, pegou nos óculos e começou a comer com eles… Cena de terror: «O que se passa, vovó? Não comas com isso.» Ligámos aos meus pais a correr (estava só eu e a minha irmã com a minha avó) e a seguir a este pequeno AVC foram mais uma data deles em que a minha avó deixou de conseguir falar, mas ainda dava passeios conosco, até que simplesmente já não conseguia fazer nada, nem comer.

Fugi dela. Não podia estar ali a vê-la morrer e, por isso, quase não a acompanhei. Não estive lá para a minha avó, como ela sempre esteve para mim…

A morte, agora, está bem perto de mim, porque há alguns meses atrás morreram os meus dois últimos avós, a minha avó logo a seguir ao meu avô… e também fugi do meu avô e da minha avó. Novamente, qualquer pensamento de os ir visitar era doloroso, qualquer vontade de os ver assim, afastada… Desculpas há sempre muitas.

Lembro-me da última vez em que estive com o meu avô Gil com vida. Resolvemos festejar os seus 93 anos apesar de ele estar já muito doente. Soprámos as velas, estivemos todos e ele estava feliz. Mesmo doente, mesmo a queixar-se de vez em quando («Mas isto nunca mais acaba?»), quando nos via sorria, ria até, à gargalhada. Falava imenso conosco e contava-nos as suas histórias, as mesmas histórias ainda mais uma vez, com o mesmo entusiasmo e alegria com que sempre as contou.

Numa sessão de terapia, contei o que se estava a passar, que queria fugir e não tinha coragem de enfrentar a doença e a morte do meu avô. Como já tinha fugido da minha avó antes e como tinha medo de que ela não soubesse como eu a amava. Saí de lá com o conselho de dizer ao meu avô o que sentia. E foi o que fiz. Uma vez, segredei-lhe ao ouvido: «Vovô, gosto muito de ti.» De outra vez em que ele se queixou «O que é que ando cá a fazer? Isto nunca mais acaba?», disse-lhe «Vovô, não digas isso, o que é que nos interessa viver se não temos cá as pessoas que mais gostamos?» Uma vez não foi preciso dizer nada. Fiquei só a olhar para ele e ele a olhar para mim e dissemos tudo com o nosso olhar.

Fugi à mesma. Fugi sempre que pude, sempre que me lembrava de o visitar, mas me faltava a coragem. Sempre que arranjava desculpas. Mas não fugi tantas vezes. Foi um pouquinho melhor e, acima de tudo, disse-lhe e mostrei-lhe como gostava dele e isso guardo comigo.

A morte para mim é horrível, aquilo em que não posso pensar nunca, para não ter os meus arrepios. Agora, quero fugir dela à medida que envelheço. Às vezes, sinto-me velha e tenho medo. Medo de tudo o que pode ainda acontecer… Medo de não poder andar, correr, dançar. Medo de já não ver tão bem, de nem me poder ver ao espelho (como ouvi noutro dia uma senhora mais velha dizer). De já ninguém querer saber de mim ou do que penso. Medo de ser invisível. Medo de, no final de tudo, morrer.

O meu avô Gil sempre me disse: «Não tenho medo de morrer.» E eu acredito nele. «Não é verdade. Toda a gente tem medo de morrer», alguém me disse uma vez sobre o que o meu avô dizia. Mas não, o meu avô era autêntico demais para estar a mentir. Espero que, um dia, tenha a mesma coragem e consiga também dizer: «Não tenho medo de morrer.»

Até lá, continuo a fugir, a fugir a cada momento, a cada passo que dou, sem pensar, sem querer saber. A tentar ignorar que o tempo passa e, um dia, é como se nunca tivesse existido.

Mas talvez não seja assim. Talvez seja diferente e haja uma vida para além da morte, alguma coisa inexplicável para lá da nossa compreensão. Dantes não sabia. Agora, cada vez mais acredito nalguma força maior do que nós por trás disto a que chamamos mundo.

Depois da morte, ninguém sabe, só quando lá chegarmos. Por isso, por agora, prefiro pensar que não é aí que tudo vai acabar!

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LENA PENTEADO, a fashion blogger
Ela é despachada, divertida e irrequieta. Tanto está nas sete quintas como sem forças para sair do sofá. Tem dois filhos e uma filha, que lhe dão cabo da cabeça, mas também são o melhor da vida. Adora a água, a natureza e tudo o que é bonito. Adora ler, fazer desporto e rir. É "um pouco" obcecada com a saúde. Por isso, come bem, faz exercício e essas coisas todas.