Por entre a névoa, a esperança

1240
Fotografia © Averie Woodard | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Averie Woodard | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Os olhos revelavam cansaço. Olheiras profundas marcavam-lhe o rosto. Uma névoa de tristeza envolvia-lhe o olhar, tal como a paisagem em redor. O dia tornara-se escuro e o denso nevoeiro cobria cada metro à sua frente. Era assim que se sentia também por dentro. Não sabia onde encontrar forças para continuar a encarar o dia-a-dia. Queria tanto encontrar outro caminho para seguir, mas não via um palmo à sua frente, quanto mais um caminho.

As energias esvaíam-se a cada dia que passava. Sentia que os seus dias eram atirados ao lixo. Era tempo que não se recuperava. Precisava de dar-lhes sentido. Empregar a sua dedicação e esforço a algo menos oco e vazio. Deixava um pedacinho de si em cada ano que passava no calendário.

Alguém passou-lhe a mão pelo rosto. Ele queria confortá-la, ajudá-la. Mas não sabia como. Tinha apenas o seu colo para oferecer. Pediu-lhe que falasse, que desabafasse o que lhe corria na alma, mas as lágrimas calaram-lhe as palavras. Aproximou-se dela e beijou-as. Secou-lhe as lágrimas com os seus lábios na esperança de que fosse o suficiente para lhe apaziguar a dor.

Ela carregava um vazio dentro de si que a ia arrastando para o fundo, lentamente. Aquele vazio era denso e pesado. Lutava para manter-se à tona porque não queria que isso destruísse o que de tão bom ainda tinha.

Abraçou-o. Um abraço demorado e apertado. Era o melhor que tinha neste momento. O seu refúgio. O seu amparo. Uma parte importante do seu equilíbrio.

Deixaram-se ficar assim, nos braços um do outro. Lá fora, os carros passavam com os quatro piscas ligados. Tinham encostado num pequeno largo, na esperança de que o nevoeiro se dissipasse um pouco mais. Mas o que se havia dissipado fora um nó na garganta.

Ele sussurrou-lhe ao ouvido que estava ao lado dela para tudo, inclusive nos seus momentos menos bons. Pediu-lhe que não guardasse tudo para ela, que não carregasse o peso do mundo sozinha. Porque não estava só. E ela sabia-o.

Levantou o rosto do seu ombro e sorriu-lhe. Ajeitou-se no banco do carro. Pela janela, olhou para cima. Quase que podia jurar que, por detrás daquele denso manto, estava o sol a brilhar.

Comments

comments

PARTILHAR
Artigo anteriorSedução
Próximo artigoFinalmente, o beijo!
ANA PEREIRA, a inquieta
Nasceu numa noite estival, mas tem alma outonal. Convive com os números, mas encontra refúgio nas palavras. Aparenta serenidade, mas governa-a uma mente deveras inquieta. Se lhe perguntarem, é assim que se define a si própria. Aliás, estas foram palavras dela.