
Chegou o momento. Aconteceu o beijo. O sonho acalentado em promessas de amor realizou-se. Vivíamos, agora, o culminar de um percurso em que as incertezas se foram dissipando, se acentuou a convicção do desejo de uma vida em comum. Naquele beijo quisemos eternizar o nosso amor, prometermo-nos ser felizes para sempre. Era, afinal, o início de uma vida!
E que sabíamos nós? Sabíamos, sim, que o nosso amor sobrevivera e se tornara mais forte apesar da nossa imaturidade, das nossas imperfeições. Sabíamos como era importante assumir os nossos erros, a lealdade, o respeito mútuo. Sabíamos também que tínhamos um grande desafio pela frente. Éramos responsáveis por preservar algo muito importante: o nosso amor, a nossa vida!
Sim, aquele beijo foi o consolidar de promessas e desejos, foi um dos momentos mais belos das nossas vivências. Assim, em cada dia, o nosso amor foi acontecendo e fomos descobrindo o muito que nos unia e também o muito que nos podia separar. Aprendemos a amar-nos nas nossas diferenças e nelas conseguimos encontrar harmonia. Afinal, não é o amor rico em contradições?
A cumplicidade, a entrega e a partilha estiveram sempre presentes sem, contudo, existirem amarras. A individualidade de cada um foi vivida plenamente. O amor não poderá ser uma prisão. Acontece que nos sentimos docemente aprisionados quando este acontece de verdade!
Não demorou muito para que nos déssemos conta de que o amor, por si só, não consegue resistir aos obstáculos que, porventura, poderão surgir. Uma grande paixão tem muita fragilidade. Um grande amor não sobrevive apenas com os momentos de intensa intimidade e entrega. Serão decisivas as nossas atitudes. Elas poderão segurar o amor nos momentos difíceis, quando tudo parece desabar. Nós não o queremos e não o desejamos, mas também não conseguimos evitar os momentos amargos. São sempre momentos difíceis de ultrapassar. Quantas vezes acontece a desorientação!
Se o amor está lá, não deixemos que o amargo da vida o faça morrer. Não digamos as palavras que vão magoar. Antes, façamos com que sejam abafadas num beijo. Não queiramos exteriorizar a nossa ira desmedida. Antes, procuremos o aconchego de um abraço. Calemos as acusações, lembrando os nossos próprios erros. Alguém disse e todos sabemos, a perfeição não existe! Sim, saibamos escutar o amor silenciando a indignação. Deixemos serenar os corações. Então, na serenidade, esforcemo-nos por adoçar o amargo. Usemos o perdão. Não podemos ter ilusões, nem sempre a compreensão acontece. Alguém nos transmitiu que «somando as incompreensões é que se ama verdadeiramente». Essa é a realidade!
Afinal, assim vai acontecendo o amor ao longo da vida. É, dia após dia, que ele se aprende, se constrói, se fortalece. E é por amor que estamos sempre lá com a entrega, o afeto, os momentos de paixão…
Foi há quase meio século que aquele beijo aconteceu!
Hoje, não nos aturamos, contrariamente ao que muitos pensam. Hoje, amamo-nos, sim. Vivemos a nossa cumplicidade, a nossa partilha, completamo-nos. O nosso amor multiplicou-se. Agora, sentimos como é gratificante receber o retorno do quanto amámos só porque sim, sem nada exigir, sem pretender cobrar. Tudo o que aconteceu não foi em vão. Sempre valorizámos o que aprendemos com a vida. Agora, saboreamos e usufruímos do que a vida nos ensinou!




