Sedução

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Fotografia © Mihail Ribkin | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Mihail Ribkin | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

O dia despertou sem compromissos agendados. Qualquer coisa podia acontecer. E essa possibilidade era roupagem suficiente para sair à rua. O sol apontou de forma certeira os seus raios e a manhã iluminou-se, contrafeita, com o brilho que eles espalharam ao transpor a rua. Era muito cedo. Ofuscada pelos fiozinhos de luz que, lentamente, a elevavam em silêncio, a manhã não duvidou que pudesse ser capaz de fazer o que quer que fosse. Apesar de estremunhada, o Sol não lhe foi, naquele dia, completamente indiferente. Há tanto tempo que por ali andava e não se lembrava de uma sensação tão arrojada como aquela. Sentiu um poder imenso. Cautelosa, deixou-se ficar no lugar que lhe era habitual e sem manifestar outra intenção que não fosse clarear, escondeu do dia a sua curiosidade. A manhã não pretendia arriscar-se a cegar sob o efeito dos reflexos sucessivos e irrefletidos de um conjunto de raios pujantes que viajara através de um espaço imenso, para ali chegar e tocar a rua como se fosse só sua. Os efeitos da adrenalina libertada depois de tão longa viagem podiam confundi-la e fragilizá-la. A manhã já vivera muitos amanheceres trapaceiros que a deixaram completamente despojada do mais valioso que tinha em si. Não pretendia cair outra vez na mesma armadilha. Aquele era um momento único, quando todo um mundo de possibilidades despontava dentro de si, retirando espaço ao mais insignificante e inexplicável desânimo. Tanto que podia chegar até si, previsível e inesperadamente. A manhã, claramente desperta, sorriu ao ver-se firmemente suspensa no ar, sem deixar de se elevar, conduzida pelo Sol que gentilmente a impulsionava a chegar a lugares onde nunca estivera. Os raios do Sol estenderam-se um pouco mais e a manhã foi incapaz de disfarçar o clarear colorido que a tomou. A perturbação evidente da manhã deu confiança ao Sol para não recuar e manter os seus raios direcionados para a rua onde tanto desejava ondular. Depois de tantas horas imersas no silêncio da escuridão, aqueles raios quase a cegavam, deixando-a atordoada e divertida com a sua insistência em beliscá-la. Ainda descrente de que fosse ela o alvo de interesse, a manhã aquietou-se na suave claridade que a atingia. Sem nunca ter sido sua intenção chegar abruptamente, o sol demorou algum tempo até se decidir a arrastar-se demoradamente pela rua. A manhã, habilmente, recuperou o equilíbrio que lhe roubava o norte e desceu a rua de mansinho sem desejar afastar a intromissão matinal do Sol. Olhou para a rua e esperou que aos poucos a claridade deixasse a nu o que por ali havia. Os raios do Sol aproveitaram as primeiras incursões da manhã e espalharam-se, já sem contenção alguma, rematando com o seu brilho resplandecente, a candura daquele amanhecer. A manhã apreciou a ousadia e elevou-se, mais um pouco, confiante no conforto de uma luz que chegava e a atingia interiormente sem a oprimir. O Sol ondulou vibrante. A manhã recebeu-o sem mais demoras.

Algumas sombras pintalgavam de modo persistente a rua, onde a manhã se acomodava todos os dias. Mostravam-se demasiado inflexíveis para que alguma coisa nelas mudasse. Mas a culpa não era sua. As sombras povoavam a manhã desde há muito tempo, um tempo tão distante, que era como se pertencessem desde sempre àquele lugar. Um dia, do qual já não se lembra a estação, a manhã desistiu de se esforçar por clareá-las e apropriou-se delas com o orgulho de quem sabe perder porque a seguir pode ganhar. Desde que decidira fazê-lo, a manhã aprendeu a embelezá-las com uma perícia que tornou a rua mais bonita do que nunca, recorrendo ao auxílio dos dotes artísticos do Sol que, deixando cair os seus reflexos, revelava o melhor ângulo das sombras invasoras. As sombras eram réstias escurecidas de um tempo em que a manhã despertava povoada de tempestades que, pela sua extrema violência, deixaram vestígios fossilizados nas paredes da rua. A manhã, na tentativa vã de as expulsar do seu domínio, travara lutas desesperadas e dolorosas. Foi ultrajada quando os modos rudes da tempestade desabaram na sua rua para deixar tudo voltado do avesso. A manhã viu a limpidez da sua claridade turvar, deixando-a cega de tristeza. A manhã quis recuar, mas não pôde, porque o dia chegava sempre com hora marcada. A claridade da manhã vergou, deixando a noite chegar demasiado cedo. A manhã não desistiu e voltou no dia seguinte. Muito a custo compreendeu que nada podia apagar o que acontecera naquela rua, tanto o que a tornara mais bonita como o que a abalara ao ponto de lhe causar fissuras tão profundas. A manhã nunca mais voltara a ser a mesma, depois das tempestades que a assolaram. As fissuras trouxeram novos jogos de luz e cor, sob um fundo sombreado, impossível de replicar. Eram assim porque eram só suas. Ali ficaram. Com novos reflexos, a manhã que ali nascia, dia após dia, deixou que as sombras permanecessem e aprendeu a gostar delas.

Agora, que o tempo de sombrear a manhã já passara, novos desafios se colocavam. A manhã deixava permanecer em si as suas sombras, mas não pretendia, de modo algum, esconder-se nelas. O Sol, magnífico, atingiu-a com intensidade. E a manhã deu por si a estender a rua para o Sol passar. Recebeu-o com toda a pompa. A manhã apreciou a presença do Sol. A sua luz descia sobre si sem a pressionar a tomar formas que não fossem apenas as suas. A manhã avançou pelo dia dentro, ao lado do Sol e não a favor do Sol. O Sol elevou-se no horizonte, confiante na manhã de que consigo partilhava o tempo de fazer do dia um tempo inesquecível. A manhã sorriu esperançosa de que o Sol não se afastasse em demasia. Deixava-se deslumbrar com a sua companhia tremeluzente que a iluminava sem contrapartidas. Contemplaram-se. A manhã sentiu-se resplandecer, apesar do crescendo do dia. O Sol apontou os seus raios aguçados pela rua, derramando aqui e ali pedaços da sua luminosidade capaz de abrilhantar o melhor ângulo do pedaço mais sombreado. A manhã deixou derramar sobre si os raios do Sol e o Sol ficou presente naquela manhã renovada.

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ANA SANTOS, a gaivota
A vida fez com que ousasse pegar numa caneta e num caderno e nele viajar pelo mundo das palavras escritas sonhadas. Primeiro a medo, depois com menos receio, deu por si a relembrar-se do prazer que já em criança sentia pela escrita. Com uma licenciatura em Físico Química, não causará estranheza que a natureza seja o seu porto de abrigo. Adora estar em contacto com a natureza e é nela que encontra algumas respostas para os seus desassossegos, sem se sentir culpada, mas sempre abraçada.