Dança na essência do ser

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Fotografia © Anton Mislawsky | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Anton Mislawsky | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

A música abraçava todo o ambiente. Até o ar respondia ao compasso escondido por trás das cortinas de fumo branco. A saia leve envolvia-lhe o corpo e ajudava a definir-lhe o contorno do corpo quando ele ameaçava desaparecer, fundindo-se com o que a rodeava.

Numa tentativa vã de se agarrar ao mundo físico, pediu uma bebida. Olhou em volta tentando concentrar-se e talvez responder a alguns acenos de reconhecimento que pressentia existirem por entre a multidão. Mas, nesse momento, já os decibéis lhe afloravam a pele, provocando um arrepio contínuo que se estendeu até ela obedecer ao seu instinto mais primitivo, abandonar os saltos altos e sentir o batimento cardíaco acompanhar a letra da canção.

O corpo reagiu com a velocidade de quem reconhece a libertação, o limiar do êxtase, o encontro de si mesma no meio do barulho de fundo da realidade. Com movimentos suaves, sensuais, naturais e tão instintivos, que lhe toldavam todo o pensamento, deixou-se ir. Criou um casulo de luz e som só seu e, apenas ao longe, pressentia o quente dos olhares de quem lhe reconhecia a energia, de quem lhe gabava a loucura, a ligação ao chão que pisava, a permissão de ser mais ela própria.

E foi assim até a música esmorecer e o sorriso, que lhe adornava o rosto, ocupar mais espaço do que todas as almas que por ali tinham passado naquela noite. Foi assim até ela se permitir descer à terra e perceber que, enquanto sentia as gotas de suor a percorrer o caminho curvilíneo até ao fundo das suas costas de bailarina, a sua bebida era a única ainda meio perdida na mesa, esperando que o divino se ligasse finalmente à terra e lhe cumprisse o propósito.

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MIRIAM AFONSO, a Mi
Escorpiã até ao tutano. Bem disposta e de sorriso fácil. Apaixonada pela vida e pelos outros. Prefere frio ao calor, chocolates a gomas e livros a sapatos. «Os Maias» são um bocadinho como a bíblia lá por casa e «O Principezinho» povoa cada espaço vazio nas estantes. É vizinha de um dos bairros mais bonitos do mundo - o do Amor - e escreve para se encontrar.