Uma paixão no Palácio de Versalhes

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Fotografia © Dan Gold | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Dan Gold | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Estava eu na entrada do Palácio de Versalhes, a tentar recompor-me dos nervos que tomaram conta de mim, quando te vi pela primeira vez. A situação que me levou àquele estado não é o assunto deste texto. Mas, sim, tu. Foi nesse momento que cruzámos o olhar pela primeira vez. Viste que chorava e aproximaste-te de mim. Fiquei sem fôlego quando reparei na intensidade dos teus olhos azuis. Passaste a tua mão no meu rosto para me limpar as lágrimas. Fiquei nervosa. Ao perto, eras ainda mais lindo.

Perguntaste-me em inglês se estava tudo bem. Respondi que sim, que não te preocupasses. Seguiste, então, para começar a visita. Eu fui à casa de banho lavar a cara e comecei um pouco depois.

Voltei a encontrar-te na galeria dos espelhos. Íamos percorrendo a sala com trocas de olhares tímidos, através dos reflexos dos espelhos. Corada, segui para a sala seguinte. Senti-te atrás de mim.

Já no quarto do rei sorrimos pela primeira vez, um para o outro, encostados a uma parede, quase esmagados pelos grupos de chineses que invadiam a sala.

Seguiste a visita. Encontrei-te depois na sala das batalhas, sentado num sofá em veludo vermelho, a admirar uma pintura de Delacroix. Sentei-me ao teu lado. Não desviaste o olhar da pintura, mas sabias-me ali.

Continuámos a visita, separados.

Reparei em ti, mais tarde, no jardim. Caminhámos lado a lado, separados pelo tapete verde, até ao lago de Apolo, onde nos juntámos e demos as mãos. As tuas mãos eram quentes e macias. Perguntaste-me o nome e disseste-me que te chamavas Salim.

Caminhámos entre os bosques, em silêncio, até ao Grand Trianon, sentindo apenas o toque, a respiração, o calor, a cumplicidade um do outro. Não eram precisas palavras. Não nos conhecíamos, não sabíamos nada um do outro, mas não era preciso. Estávamos a aproveitar cada minuto juntos.

Parei para fotografar os lagos. Senti-te a fotografar-me. Olhei e sorri-te. Captaste o melhor de mim, o meu sorriso.

Começou a chover e tu abrigaste-me da chuva com o teu chapéu. Puseste o teu braço pelas minhas costas e continuámos a caminhar. Entre sorrisos e olhares, parecia que te conhecia desde sempre.

Foi no templo do amor que nos beijámos pela primeira vez. Os teus lábios eram carnudos e suaves e o teu beijo doce e envolvente. Ficámos neste beijo muito tempo, terminado com um abraço apertado, que me deu uma sensação de paz, de felicidade por te ter encontrado, de segurança de que te teria para sempre comigo.

Estivemos várias horas nos jardins do Palácio a viver esta paixão, como verdadeiros apaixonados, esquecidos do mundo, das nossas vidas, para lá dos portões de Versalhes.

Quando finalmente cruzámos o portão para sair, vieram-me muitas perguntas à cabeça. E, antes que tivesse tempo de perguntar alguma coisa, começaste a falar: «Carina, apaixonei-me ao primeiro olhar. Não pensei que isto fosse possível. Não sei explicar.» Fizeste uma pausa, engoliste em seco, limpaste as lágrimas que entretanto começaram a cair e continuaste: «Não posso ficar contigo.» Perplexa, perguntei: «Mas porquê?» «Tenho casamento marcado no meu País, com uma rapariga que nem conheço. Desculpa.» Fiquei sem reação. As lágrimas escorreram-me pelo rosto, sem eu conseguir controlar. Beijámo-nos uma última vez, um beijo salgado, um beijo que representou uma vida inteira.

Cruzámos o olhar. Os teus olhos azuis, como a imensidão do céu, eram agora tristes.

Um último abraço — antes de me virar e seguir caminho até à estação de comboios, sem olhar para trás, com o meu coração a chorar.

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CARINA MAURÍCIO, a fotógrafa
É budista e conservadora-restauradora. É de riso e choro fáceis. Tem tanto de sensível, quanto de corajosa e lutadora. Adora fotografar, jogar ténis e viajar. Viciada em comida, é fã de comida italiana. Gosta de dormir, de café, de chocolate. Dançar? Pode ser a noite toda. Mas também gosta de ficar na ronha, em casa, entre filmes e pipocas. Adora o som da chuva a cair no inverno e o som do mar em dias de verão. Campos floridos enchem-lhe o olhar, assim como as cores das folhas do outono. Apaixona-se facilmente e é uma apaixonada pela vida. Uma geminiana pura.