A Chuva

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Fotografia © Pexels | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Pexels | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

A luz, que caía do poste de eletricidade pública, iluminava a chuva que se precipitava sobre o chão da rua, onde o silêncio só tinha por companhia a presença ruidosa do respingar da água nas poças que pululavam aqui e ali. A chuva riscada, tal como os meninos a desenham na folha do caderno, vinha do alto, sombrio e profundo aos olhos dos que a olhavam de cabeça erguida. A distância, desde a nascente que ninguém conhecia até ao chão, vizinho do casario daquela rua, era imensa, mas não retirava à chuva a vitalidade com que a percorria. A chuva caía compassada e firme para, logo que atingia o chão, ressaltar como se o toque a despertasse para o arrependimento; arrependimento por ter escolhido o mundo terreno para dar continuidade ao que há tanto tempo iniciara com a mais pura intenção. Não. Definitivamente, não. A chuva pulsava de alegria. Embora não tivesse intenção de refrear a emoção que a invadia, a chuva receava o julgamento dos que a olhavam atentos, agora que ficara tão perto e acessível. Estava decidida quanto ao seu propósito e o chão, precavendo essa possibilidade, mostrava-se suficientemente rígido para não permitir tal fragilidade.

A chuva tinha sentido único. Não ia deitar tudo a perder quando, depois de tanto ter hesitado, tomara a resolução de se lançar a ares nunca antes visitados. Porém, a sua natureza transparente não lhe permitia ignorar o pavor que a inundara quando atingiu o chão, rodeada de plena escuridão, com apenas um foco de luz voltado para si. Assustador. Só as pequeninas gotas de água, que se mantinham no conforto da nuvem, desconheciam a confusão de que se é acometido quando, no impacto da queda, por mais breve que seja, a limpidez do olhar é substituída pelo embaciamento que tudo turva em seu redor até a clareza de espírito. Era delas o poder de decidir se algum dia ousariam enfrentar o risco de se deixarem cair, num balanço imprevisível, tendo apenas um pequeno foco de luz a dilatar o espaço em seu redor. A chuva sentia-se sem pé, agora que atingira o chão firme e indeformável. Dando a si mesma algum tempo para se recompor, a chuva deixou-se ficar quieta, imersa numa poça de água onde, se permanecesse demasiado tempo, arriscar-se-ia a submergir. A chuva olhou para cima, num misto de nostalgia e orgulho pelo espaço varrido tão precipitadamente, mas só viu a escuridão. Voltar atrás seria suicídio, algo inapropriado depois das voltas e reviravoltas que a domaram, numa fúria inexplicável, dentro da nuvem que um dia a acolhera. Tanto tempo passara desde que planeara deixar-se cair, até ao dia em que a coragem lhe estendeu o braço para, inadvertidamente, a lançar ao encontro do que não conhecia. Insensata, diriam alguns. Audaz, diriam outros. Nem uma coisa, nem outra. Apenas leal ao que era só seu: a sua identidade única e verdadeira.

A poça, parca de espaço, reteve a chuva ofegante, dependente do que lhe era familiar mas não a honrava; sentia-a a tremer. A poça oscilava num desequilíbrio premente. A chuva voltou a olhar para cima, na esperança de que o tempo a sugasse e a colocasse, de novo, no lugar de onde viera. Efeitos do ar escasso numa poça transbordante de água que viera em queda do alto, profundo e sombrio. O tempo que jamais recuava salvou-a da imprudente e fugaz ideia. Um breve bafejo de ar recompô-la para que a liberdade de ser a deixasse pousada e serena na poça de água que a recolheu. Foram breves os momentos para que, sob a luz do candeeiro que não a deixara de fixar, voltasse a deixar-se levar pela ansiedade, deixando a poça instável e em permanente oscilação. Caíra, mas nada a obrigava a ficar para sempre naquela poça de ressentimentos. Declinava-o.

Caíra pelos melhores motivos. Confiou e acreditou e, por isso ficou. Lá no alto pensou que estava protegida e que dependia apenas de si para que, na sua nuvem, nada faltasse. Mas a chuva não era tudo. Muito mais havia para além da chuva. E isso nunca fora responsabilidade sua. A força que sobre a chuva se abateu colocou-a cada vez mais perto do precipício e a eminência da queda era quase uma certeza. A chuva pingonas não pretendia abandonar a sua nuvem e, sem pensar no perigo que corria, voltou a suster-se, crédula de que nada lhe faria mal. O vento soprou e a chuva vacilou. A chuva com os seus modos conciliadores inclinou-se a favor do vento. O vento sentiu-se defraudado e delirou atirando-a para a beira do precipício. A chuva deu por si a deslizar, incapaz de conter o avanço aterrador. O vento soprou, tomado pelo seu desvario, partindo-a em pedaços que ela não foi capaz de unir. A chuva perdeu-se de si e desprezou a ilusão de ser acolhida pela nuvem onde escolhera ficar. Saltar deixara de ser aterrador. Fazê-lo deixou-a, no entanto, num vazio demolidor que a comprimia. A pressão atmosférica foi decisiva quando impediu que se deixasse iludir, mais uma vez, pela beleza da nuvem para onde jamais voltaria.

Na poça, de que todos se desviavam, a chuva sentiu-se suavemente morna. A luz do candeeiro recebera-a calorosamente, norteando cada um dos seus pedaços que, num esforço belicoso, se esforçavam por manterem-se unidos. A sua nuvem ficara imersa para sempre na escuridão, enquanto, com alguma estranheza desconcertante, dava por si a olhar para o seu reflexo projetado na bolha de luz que a albergava. A chuva foi trespassada por raiozinhos que se entrechocaram criando um jogo de cores resplandecentes. Tentavam animá-la. A chuva sentia-se derrotada, mas aquela luz faiscava de modo indecifrável como se de um festim se tratasse. Era demasiado cedo para congeminar o que quer que fosse. A chuva precisava de percorrer o chão quanto antes. Chamando a si todas as forças, a chuva ousou um ressalto que a projetou para fora da poça. Jorros de água projetaram-se de todos os lados, incomodados que estavam com a intromissão da chuva que sempre se haviam habituado a vê-la tão distante. A chuva arrepiou-se com os borrifos que a atingiram e quis fazer o mesmo. Os seus pedacinhos partidos não lhe permitiram atingir alturas tão estonteantes. O medo de serem acometidos de ventanias agrestes deixava-os mais cautelosos, quando o que mais desejavam era regenerarem-se para conquistar o direito de ser o que sempre foram. A poça, incapaz de reter toda a água, transbordou atabalhoadamente. Num serpenteado louco, a chuva correu pela rua, incapaz de conter a corrente. Desconhecia onde a levaria aquela força que a impelia para avançar. Deixou-se ir. A dor que a inundava fundiu-se com a liberdade e o orgulho de ser a única responsável pelo caminho escolhido. Não queria mais a escuridão que a partira. Os seus pedacinhos sobreviventes estavam consigo, não perdera nenhum, e isso era motivo suficiente para se sentir triunfante. Tinha uma tarefa árdua pela frente: descobrir como mantê-los unidos.

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ANA SANTOS, a gaivota
A vida fez com que ousasse pegar numa caneta e num caderno e nele viajar pelo mundo das palavras escritas sonhadas. Primeiro a medo, depois com menos receio, deu por si a relembrar-se do prazer que já em criança sentia pela escrita. Com uma licenciatura em Físico Química, não causará estranheza que a natureza seja o seu porto de abrigo. Adora estar em contacto com a natureza e é nela que encontra algumas respostas para os seus desassossegos, sem se sentir culpada, mas sempre abraçada.