A ti, que gostas de mim incondicionalmente

Texto vencedor do desafio de escrita: «Animal»

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Fotografia © Carina Maurício | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Carina Maurício | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Eras tão pequenina quando me adotaste. Sim, eu acredito que os gatos é que nos adotam. Quando me viste já não saíste do meu colo. Teve tanto de repentino como de inconsciente quando disse que ficava contigo. Era uma grande responsabilidade.

Levei-te ao veterinário. Comprei-te comida, uma cama, uma caixa para te transportar, outra para a areia. E lá foste tu comigo. A partir desse dia, deixei de andar sozinha, de casa em casa. Agora éramos as duas.

Deram-te o nome de Beatriz, e assim ficou. Mais conhecida como Bia. Chamo-te Beatriz quando é para ralhar contigo. Tal como as mães tratam os filhos pelo primeiro e segundo nome, quando é para repreender.

Tens o pelo de várias cores: preto, branco, cinzento e castanho. E umas manchas simétricas. Do lado direito tens uma marca triangular, por cima do olho, a orelha, a bochecha e as patas, de cor castanha. Do lado esquerdo, as mesmas zonas são cinzentas. És mesmo gira.

Sempre foste fácil de cuidar. Gostas da comida que te compro. Deixas-me dar-te banho., cortar-te as unhas. Mas, em compensação, sempre adoraste roer os fios cá de casa. Os finos, como os de telemóvel, vão todos à vida. Os outros, que não consegues roer até ao fim, têm a marca dos teus dentes. Um dia, cheguei a casa e não havia internet, televisão ou telefone. Tinhas roído tudo.

À exceção desta tua mania de quereres ser um rato, és uma querida. Acordas-me com turras na cabeça. Dás-me mimos. Lambes-me as lágrimas quando choro. Acompanhas-me para todo o lado. Sim, os gatos não vos deixam fazer nada sozinhos — inclusivamente, ir à casa de banho. Sentas-te sempre ao meu colo, ou mesmo à frente dos meus olhos. O importante é que eu te tenha sempre em primeiro plano.

Não gostas que fale ao telefone. Começas a miar. Acho que tens ciúmes porque não te estou a dar atenção. Ronronas quando estás feliz e abanas o rabo quando estás irritada. Quando queres dormir, ficas a olhar para mim, com olhos de sono, porque nunca mais desligo a luz. Depois, acabas por desistir e fazes os teus malabarismos para te enfiares debaixo da tua manta, até eu deixar de te ver. A sério, Bia, nunca percebi como respiras debaixo das mantas.

Antes, dormias comigo, mas tive que te desabituar. Bastaram dois dias. Lá nisso és bem educada. Aprendes rápido. Mas não podia ser. Estavas constantemente a sair e a entrar na cama. E, de cada vez que querias entrar, acordavas-me com turras na cabeça para te levantar as mantas. Então, chegava ao trabalho cheia de sono. Eram os meus colegas a queixarem-se que os filhos não os deixavam dormir e eu, bem, eu era por causa da minha gata. Não podia ser.

Quando tenho visitas, se não gostas da pessoa, isolas-te. Se gostas, és uma oferecida. Não deixas a pessoa em paz. Só queres que te faça festas. Eu acredito nisto, que os gatos sentem as energias das pessoas.

Nunca gostaste de viajar. Sempre te levei ao fim de semana, quando ia a casa, para não ficares sozinha. Duas horas de viagem e eram duas horas que ias a miar. Uma vez, ficaste sem voz.

Desde que fui a França, um mês e tal, ficaste com a avó. Ela tinha dois gatos e, entretanto, um faleceu. E tu e o Kiko habituaram-se a estar juntos. Desde que voltei, há três meses, estou sozinha. Custa-me separar-vos.

Tenho muitas saudades tuas. De te ouvir a miar, quando venho a chegar ali à fonte. Parece que me pressentias a chegar. Ainda bato no vidro na esperança de te ver a saltar para a janela, a desfilar no parapeito. E, quando abro a porta, ainda olho para o chão na esperança de te ver.

Mas sei que estás mais feliz aí na casa da avó. E eu não posso ser egoísta e querer-te comigo porque me sinto sozinha. Quando ligo à avó, ela põe-te o telefone ao ouvido. Eu chamo-te e ela diz que dás turras no telefone. Outras vezes, mias.

Aqui, na vila, já deram pela tua falta. Principalmente, o miúdo do prédio da frente. Aquele que vinha tomar o pequeno-almoço à janela, porque só comia a olhar para ti. Além disso, eras uma atração para os turistas. Muitos tiravam selfies ao teu lado. E eu apanhava com cada susto, cada vez que batiam no vidro a meterem-se contigo.

Pois é, Bia, tenho saudades tuas. Porque não és só o meu animal de estimação. És a minha amiga, a minha companheira, a minha confidente. Aquela que me ouve, que me compreende, que me acarinha, sem esperar nada em troca. Aquela que está sempre aqui para mim.

Independentemente do meu estado de espírito, tu gostas de mim incondicionalmente. E eu de ti, minha querida Bia.

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CARINA MAURÍCIO, a fotógrafa
É budista e conservadora-restauradora. É de riso e choro fáceis. Tem tanto de sensível, quanto de corajosa e lutadora. Adora fotografar, jogar ténis e viajar. Viciada em comida, é fã de comida italiana. Gosta de dormir, de café, de chocolate. Dançar? Pode ser a noite toda. Mas também gosta de ficar na ronha, em casa, entre filmes e pipocas. Adora o som da chuva a cair no inverno e o som do mar em dias de verão. Campos floridos enchem-lhe o olhar, assim como as cores das folhas do outono. Apaixona-se facilmente e é uma apaixonada pela vida. Uma geminiana pura.