Os nossos caminhos tinham-se cruzado

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Fotografia © Alice Donovan Rouse | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Alice Donovan Rouse | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Como todas as manhãs, entrei em passo apressado no comboio; vi o lugar junto à janela, que tanto gosto, vago e corri para lá. O café que tinha bebido ainda não tinha feito o devido efeito, e a única coisa que me apetecia era colocar os auscultadores nos ouvidos e desligar-me, por momentos, da realidade, perdendo o meu olhar pela paisagem que via lá fora.

Mas, na paragem seguinte, o lugar à minha frente ficou vazio e, rapidamente, ouvi alguém pedir licença e ocupá-lo. Estava frio. Trazias um gorro, cachecol e luvas. Sem ligares a nada ou a ninguém à tua volta, tiraste as luvas e o livro que trazias contigo. Nunca mais me esqueço: «A Volta ao Mundo em 80 Dias». E começaste a ler, absorvido pela envolvência da história. Imediatamente comecei a imaginar quem serias e o que gostarias de fazer. O que se passava lá fora já não me interessava. A única coisa que queria saber era quem tu eras.

Pelo livro que lias, achei que serias alguém que apreciava clássicos, mas, ainda assim, sedento de novas descobertas e com desejo de viver novas aventuras. Não trazias relógio ou quaisquer acessórios — serias, então, uma pessoa muito descontraída e prática. Vestias umas calças de treino e calçavas uns ténis — voltei a achar que apreciavas o lado prático e desprendido da vida e, provavelmente, até um pouco desleixado. Mas, depois, passou-me pela cabeça que provavelmente serias um desportista profissional ou um professor de educação física numa qualquer escola secundária.

Ainda não o tinha conseguido ver, mas já adivinhava que o teu sorriso era capaz de iluminar um sala inteira e torná-la mais quente. As tuas mãos eram fortes, mas, ao mesmo tempo, delicadas, capazes de tocar as pessoas de forma especial. O teu cabelo desgrenhado dava-te um ar de menino rebelde, mas, ao mesmo tempo, doce.

Olhava para ti e deseja fazer-te todas as perguntas que me passavam pela cabeça. Queria saber como te chamavas, o que fazias, qual a tua música favorita, qual o teu local de eleição. Queria muito saber se o teu coração estava ocupado, se havia alguém que tinha o privilégio de olhar nos teus olhos todos os dias. E pensava: «Que loucura!» Como era possível que um homem, que nunca tinha visto na vida, tivesse despertado em mim todo este vendaval de emoções?

Então, num instante, eu despertei desta espécie de transe em que me encontrava quando o teu olhar encontrou o meu.

— Olá! O meu nome é Pedro. E o teu?

A partir desse momento, tudo era possível. Os nossos caminhos tinham-se cruzado.

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DIANA ROSA, a viajante
Tem 34 anos. Trabalha na área financeira, mas não é isso que a move. A grande paixão — aquilo que a faz vibrar — são as viagens: pelo mundo e pela vida, descobrindo novos lugares, experiências e emoções. Gosta da natureza, de ler, de praticar yoga e de pessoas. Busca ser feliz e realizar sonhos. E este desafio é um passo, inesperado, dado nesse sentido.