Talvez ainda sobre amor

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Fotografia © Alexander Solodukhin | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Alexander Solodukhin | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Tinha marcado mesa para as dez. Gostava de jantar tarde para poder apreciar a noite a deitar-se. Quando ligou para fazer a reserva, tinha pedido uma mesa junto à janela. Era assim que apreciava os outros. Sozinha. Do lado de dentro do vidro. Era exatamente assim gostava de estar. No recanto da vida. Sem se deixar ver, mas atenta ao mundo. Gostava de imaginar as histórias das pessoas que passavam no passeio junto à janela do restaurante. Não precisava de ser aquele passeio e aquele restaurante. Podia ser uma qualquer rua e uma qualquer mesa – desde que a rua tivesse passeio e desde que a mesa ficasse junto à janela.

— Para beber, pode ser um copo de vinho tinto, por favor. Do Douro. – Disse, simpaticamente, ao empregado de mesa.

Era domingo. Tinha chovido a tarde toda. As luzes dos candeeiros faziam-se refletir nas poças de água, deixando a cidade ainda mais iluminada, naquela noite. Lá fora – do lado de fora da janela, daquele restaurante -, a cidade ia recolhendo aos poucos. Mas ainda se podia ver alguma vida. Do lado de fora, passava, agora, um casal de mãos dadas. Gargalhavam de alguma coisa que era impercetível dali – do lado de dentro da janela -, mas também não era preciso saber o motivo de tanto riso. A felicidade estava-lhes estampada no rosto. Aquelas gargalhadas que saíam em uníssono eram só mais uma forma de dizerem, um ao outro, que se amavam. Para quê palavras quando o amor é feito de gestos? Do outro lado da rua, passava uma rapariga. Escondida, atrás da sua gigante gola branca, os cabelos longos de pontas claras ainda se deixavam ver. Era uma rapariga bonita. Havia de se fazer uma linda mulher. Daquelas mulheres nas quais até um par de calças rasgadas e uma camisola de mangas largas de lã lhes assenta magnificamente. Deus queira que não se estrague. Que a vida lhe sorria sempre porque ainda vai fazer sorrir muitos homens. De paixão. De amor. De desejo. Por ora, é só uma rapariga cheia de frio escondida atrás da sua gigante gola branca.

A cidade preparava-se para acalmar. Acalmar de mais um fim de semana onde, certamente, deixara histórias para recordar. Para contar. E outras tantas por viver. Por nascer. Por acontecer. Assim é a vida na cidade. Aliás, a bem da verdade, assim é a vida. Uma sucessão de histórias que fazem as histórias das gentes. E assim ia a vida, naquele domingo, do lado de fora da janela, daquele restaurante.

Sofia fora interrompida pela chegada da comida. Agradecera ao empregado de mesa e, de seguida, pegara no copo de vinho para inundar as papilas gustativas com aquele sabor frutado do qual aprendera a gostar há uns anos. Naquela noite, tinha escolhido comer bife de atum em cama de vegetais gratinados. A cadeira que sobrava na mesa, onde se sentara, permanecia vazia. Fizera acompanhar-se apenas de si mesma naquela noite. Tal e qual como acontecia nas noites em que não lhe apetecia ficar em casa e em que precisava de estar consigo. Não era uma mulher solitária. Muito pelo contrário. Mas precisava, cada vez mais, de estar consigo.

E estava. Havia dias em que não precisava de mais ninguém. Aprendera a não precisar de mais ninguém. Tivera algumas relações ao longo da sua vida. Umas acabaram porque assim tinha de ser. Outras terminaram e fizeram-na sofrer. A vida foi-lhe ensinando que tudo tinha o seu tempo. Até o sofrimento. Agora, que pensara nisso, talvez lhe tivesse dispensado demasiado tempo. Mas percebera que fora o tempo suficiente para renascer. Para se tornar na mulher que, hoje, era. Crescida. Já não sofrida. Serena. Sim, era isso. Era serenidade que sentia dentro de si. Serenidade com a vida e, acima de tudo, serenidade com ela mesma. Ainda não tinha condenado o amor, definitivamente, mas tinha-se conformado com o facto de que, talvez, ela tivesse sido escolhida pelo criador para dar o seu imenso amor aos amigos, à sua família, ao seu cão – que insistia em aninhar-se todas as manhãs aos pés da sua cama – e a todos os que a rodeassem. Já se tinha conformado que aquele tanto amor que sentia, se calhar, era demais para uma pessoa só e talvez, por isso, aquele amor tivesse de ser repartido pelos que considerava seus. Percebera que talvez não voltasse a chamar amor a alguém, mas isso, surpreendentemente, já não a fazia pensar. Tão-pouco a fazia sofrer. Aceitara essa condição porque descobrira que era possível ser-se, verdadeiramente, feliz assim. Tal como ela era.

Achara que o bife de atum, hoje, estava particularmente saboroso. Desviara a atenção, novamente, para o lado de fora da janela. Voltou à vida dos outros, esquecendo-se, por mais uns minutos, da sua. Era uma mulher feliz.

— Peço desculpa estar a interromper o seu jantar – disse, um pouco atrapalhado, o empregado de mesa -, mas o senhor que está naquela mesa insistiu muito para que lhe entregasse este papel.

Tivera tempo de limpar a boca antes de agradecer ao empregado de mesa. Pousou o guardanapo de pano – que se encontrava, até àquele momento, depositado no seu colo – em cima da mesa e agarrou, involuntariamente, no papel que vinha dobrado em quatro. Olhou em frente. Pôde ver, numa mesa em frente à sua, um homem que a observava. A principio sentiu-se incomodada. Invadida. Intimidada. Mas aquele olhar, a forma como ele a observava, inexplicavelmente, acalmou-a. Ele, um homem de tez séria, deixou fugir um sorriso subtil assim que os seus olhos se cruzaram. Esticou, ligeiramente, o braço como quem dá a deixa do que fazer a seguir. Aquele gesto sugerira a Sofia que abrisse o papel e o lesse.

Sem conseguir desviar o olhar daquele homem, Sofia abriu o papel e leu-o, apressadamente. Demorou alguns segundos até fixar o que estava lá escrito. Voltou a dobrar o papel e olhou-o. E ali estava ele. Desta vez, a tez séria desfez-se num sorriso rasgado quando pode confirmar que Sofia se levantara e se dirigia à sua mesa.

O caminho que separava as duas mesas deu tempo para Sofia repetir, mentalmente, as palavras que estavam escritas naquele papel. Podia jurar que as ouvira. Podia jurar que as ouvira pela voz daquele homem. Podia jurar que lhe conhecia a voz mesmo nunca a tendo ouvido. Podia jurar que lhe conhecia os sussurros junto aos seus ouvidos. Podia jurar que lhe sentia a respiração acelerada junto da sua pele. Podia jurar que o seu coração nunca deixara de acreditar por causa dele. Por ele. E de copo da mão, de sorriso no rosto e de passada firme, fechou os olhos e disse:

— Talvez a vida, hoje, se passe do lado de dentro da janela…

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JÚLIA DOMINGUES, a JUX
Tem 38 anos. É solteira e igual a si mesma. Licenciou-se em Direito, sendo Jurista, mas a mais sábia aprendizagem foi aquela que a camaradagem desses tempos trouxe — e que dura, na maioria, até hoje. Tem um refúgio que gosta de pensar que é secreto: Braga, Gerês, a terra dos seus pais. Desde os 25 anos que diz: «Qualquer dia, piro-me de vez para o Norte. Quando for grande.» Mas nunca se pira, apesar de já ser grande. Adora tudo o que seja trabalhos manuais e o desenho é, sim, a sua verdadeira paixão. Tem fobia a andar de avião. E acredita no amor, embora não em coisas especiais. Afinal, não é preciso que ele venha de cavalo branco.