Silêncio: o amor chegou!

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Fotografia © Alvin Mahmudov | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Alvin Mahmudov | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Tenho bastante respeito pelos silêncios. Não só pelos meus, que são talvez a minha maior necessidade, mas pelos silêncios que surgem e, então, se manifestam sem qualquer aviso.

Temos bastantes momentos desses entre nós. Já os vejo quase como uma forma de falar, através da qual sabemos o que quer dizer.

No entanto, hoje, antes de voltar a adormecer, gostava de te ouvir. Ainda que por um breve sussurro, pois, se bem me recordo, a tua voz já pouco se ouvia nos últimos tempos. A doença desgastou o teu corpo, o teu toque, a tua voz, o teu olhar, o teu humor, o teu beijo quente na testa e o teu sorriso contagiante.

Os meus silêncios já eram maiores do que a capacidade de soltar palavras. Restavam-me os bilhetes que te fui deixando, as cartas que te fui escrevendo, as mensagens que fui espalhando a cada dia de vida, os olhares de menina que fui deixando escapar.

Eras tu, só tu, quem queria ouvir.

Precisava de um sonho, daqueles reais. Não dos de princesas e castelos. Nesses já não consigo acreditar. Embora adore até hoje os desenhos animados que pedia para ver, desde sempre.

Precisava de uma pausa, sem tempo contado, para viver esse sonho de mão dada contigo.

Deitados na areia fina da minha praia, com os pés próximos do mar, de olhos postos no céu azul água, com um convidado especial, o sol. Roupa branca, pois reflete perfeitamente a paz e leveza do nosso ser. Mãos salgadas, peito cheio de ar e nós ali.

Em silêncio. Porque o momento pede esse silêncio. O mar exige ser ouvido. O sol obriga a que os olhos se fechem. O momento é para ser usufruído ao máximo. Sem palavras, sorriso discreto, lágrima frágil e fria. No entanto, rosto quente e sereno.

As minhas palavras há muito que já não são só minhas. Não saem sempre, mas acredito que as reconheças quando as consigo expressar e registar momentos.

Esperei mais um pouco. Deixei gelar os pés e as mãos. Deixei arrepiar a pele com o frio que se fez sentir aquando da despedida do sol quente. Ele tem tempo contado para sair de cena, tal como a memória deste sonho que, um dia, espero viver.

Ainda em silêncio, abri os olhos. Já só estou eu ali. Calculo que tenhas sido uma visão bem real e sentida daquilo que não foi, mas que eu acreditei viver. Em silêncio, me desfiz em breves lágrimas. Aquelas que evito a todo o custo, com sabor a saudade de algo que não vivi, e que ainda espero.

Terá sido só um desejo?

Terá sido só um sonho?

Terá sido real?

Vou respeitar o meu silêncio. Vou respeitar o teu silêncio. E respeitar o nosso momento. Vivido a dois num só eu.

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ANDREIA DE CASTRO, a princesa
Se fosse o seu pai, dir-nos-ia: «A Andreia é uma princesa... Só ainda não sabe que o é.» E, para ele, isto definiria tudo. Porque a Andreia é amor. Amor pelos outros, mas não tanto por ela própria. Porque a Andreia é família: vive para e por eles. Porque a Andreia é o sorriso, a lágrima, o vento, o sol, o silêncio, o mar e o céu sem limite. E, além de tudo disto, a Andreia é ainda solitária, viajada, artista, insegura, auto crítica, beijoqueira. É a princesa que o pai sempre quis ter. E que, até ao parto, esperavam que fosse um menino... Mas a Andreia, porque também é sentido de humor, enganou tudo e todos. E não se limitou a nascer menina. Nasceu princesa.