Aquele Inverno é a brisa de uma recordação

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Fotografia © Freestocks.Org | Cartaz @ Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Freestocks.Org | Cartaz @ Laura Almeida Azevedo

O Verão passa por aqui rápido demais! Tão rápido que nem dou por ele. Há dias em que sinto a brisa da tua lembrança a tocar-me suavemente na pele. Por vezes, é um sentir tão intenso, como se fosse numa tempestade. Tantas as memórias que essa brisa faz desprender da minha alma. Uma tempestade cresce e se transforma num furação.

Esse Inverno já longíquo e repleto de emoções. Esse Inverno em que a minha alma perdeu calma. São recordações de momentos que o tempo é incapaz de apagar. Lembranças que ainda me aquecem o corpo nas noites frias. Quando a solidão me mostra que a fogueira do amor se apagou. São elas que procuram pelo calor da paixão que já me aqueceu. Enquanto eu viajo no tempo e fico a ver passar à frente dos meus olhos as imagens daquele filme. E, então, lembro-me das tuas mãos macias que me acariciavam a pele. De como o sopro do teu desejo era o vento da tentação. Recordo os teus lábios doces que confidenciavam ao ouvido palavras silenciosas, que só o nosso amor conhecia. Recordo as nossas viagens pelos céus da perdição, nas noites em que o frio não existia. Naquelas noites em que o calor do nosso amor poderia derreter todo o gelo que existisse no mundo.

Nessas noites de Inverno, aconteceu a magia. A nossa vida foi o fogo de artifício, feito por uma paixão que nos preenchia todos os momentos livres. Tu chegavas e trocávamos um beijo quente na entrada da casa, com a neve a cair sobre os nossos rostos. Eu escondia-me no teu abraço, que não me deixava sentir o frio da noite. Tudo começava ali e terminava entre as quatro paredes, que conheciam a história do nosso amor. Só elas poderão contar ao mundo o que se passou naqueles frios meses de um Inverno que deixou marcas quentes no meu coração.

Hoje, as lembranças do que fomos são apenas segundos, em que sonho com a intensidade das horas em que esse amor nos preenchia as vidas. Ilusões, que me fazem viajar. Que me dão asas para voar e abraçar a saudade que resta dessa felicidade. Instantes em que ainda me sinto preenchida pelas memórias, que hoje me parecem uma tempestade.

Esta tempestade que te empurrou para longe. Esta tempestade que transformou o meu viver num amontado de recordações. Recordações boas, que confirmam que este passado nunca será um peso. Esse passado que me deu a liberdade de vivermos a nossa paixão.

E, agora, de cada vez que o vento chega trazendo as tuas lembranças, eu segredo-lhe ao ouvido que o passado valeu a pena. Valeu a pena porque tudo o que vivi me fez feliz. É o calor dessa felicidade que me aquece nestas noites frias de Verão. Frias, porque em mim só existe saudade e solidão. Frias, porque não tenho as tuas mãos. Apenas vejo as fagulhas das recordações a saltarem da fogueira de já não existe. Um passado onde o fogo se foi apagando. Desse Inverno resta-me a foto esquecida sobre na mesa da sala, junto ao sofá onde me prometias a eternidade que não nos pertencia. A foto que alguém nos tirou e que mostra como o teu beijo desenhava felicidade nos meus dias.

Nesse Inverno, já tão longínquo, ficou esquecida a mulher a quem juraste amar. Hoje, neste Verão, renasce a mulher furação, a quem só os sonhos aquecem porque se esqueceu do sabor da paixão. Nesse Inverno, que recordo, ficou esquecido o perfume do teu corpo, que se entranhou em mim e que nem vento leva. Essa paixão que me pesa no coração que não entende a tua partida. Naquele Inverno mora a minha ilusão, que, por vezes, me visita nas noites quente de Verão.

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ANGELA CABOZ, a miúda gira
Nasceu em Tavira há 49 anos. Desde a adolescência que é uma apaixonada pela leitura, pela escrita, pelo cinema e pela música. Escreve sobre sentimentos e, nas palavras, reflete a maneira de ver e de sentir o mundo. Em 2014, realizou um sonho: a publicação do seu livro «À procura de um sonho». Desde então, tem participado em várias obras coletivas.