O dia em que te esqueceste de mim

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Fotografia © Toa Heftiba | Cartaz © Laura Almeida Azevedo
Fotografia © Toa Heftiba | Cartaz © Laura Almeida Azevedo

Estava sentada no consultório há cerca de quinze minutos, com as mãos sobre os joelhos, a olhar para o nada. Ouvia vozes de fundo, mas tinha deixado de as ouvir depois da frase: «O teste veio positivo».

Clara queria ter ido sozinha, pois não queria a pressão, a tristeza, e tudo o que a confirmação daquela doença podia trazer. E trouxe. Mas ela não deixava. A sua menina jamais a deixaria ir sozinha, e ela não soube esconder-lhe isto. Cláudia tinha agora 24 anos, era a sua única filha, e o seu único e maior amor. Era a sua alegria, o seu sol. Estavam agora, juntas, a ouvir o destino das suas vidas num futuro próximo.

Enquanto Cláudia e a médica falavam, Clara só conseguia observar a filha, a sua testa franzida, as mãos que entretanto apertavam as suas com muita força, e os olhares nervosos em busca de respostas que nunca viriam. Sentiu o peso moral da doença a apoderar-se do seu corpo e foi como se a cadeira e os seus próprios pés pregassem ao chão.

Odiava sentir-se sem controlo no seu próprio corpo, na sua própria vida. Tinha um novo companheiro na sua cabeça, que afinal carregara toda a sua vida sem saber. Ouviu a voz dela, da filha, a sua única e fiel companheira desta vida.

— É genético. Pode ou não passar aos seus filhos — disse a doutora, olhando para Cláudia. — Mas, no caso da sua mãe, é galopante!

— Tem nome? Demência? Quanto tempo?

— É Alzheimer… Neste caso, e dado as alterações que tem estado a sentir, de seis meses a um ano, o melhor será encontrar um lugar… — a voz falhou, e Cláudia desviou o olhar para a luz e apertou ainda mais a mão da mãe, ainda em silêncio.

Saíram do consultório com a sensação de terem sido abalroadas por um camião. De mãos dadas, mãe e filha, seguiram caminho a pé até casa. Clara observou o caminho com atenção redobrada, pensando mil vezes se se iria lembrar das ruas, das caras, e até de si própria. Caminhavam tão devagar que a vida em redor parecia ter abrandado para metade da velocidade. Tentou decorar todos detalhes do caminho. Como raio se ia esquecer? Porque raio não conseguia controlar a sua própria cabeça?

Cláudia, sempre de mão dada com a mãe, inspirava de olhos fechados e pela primeira vez Clara viu a mulher, e não a menina, que tinha criado. O peso que carregava na expressão do olhar, a firmeza com que lhe apertava a mão, e o sorriso que lhe devolveu quando se apercebeu que estava ser observada. Sempre a luz, sempre a alegria, sempre a menina mulher mais bonita do mundo.

— Vai correr bem, mamã. Estou aqui para cuidar de ti. Tu e eu até ao fim do mundo — disse numa confiança que só ela tinha.

Mas não correu tudo bem. Correu como uma morte lenta, ao corpo de uma, ao coração de outra e à alma de ambas.

Clara fazia exercícios diários de memória, colocava alertas no telemóvel, fazia desafios para si própria, sempre em constante esforço. Fazia notas em folhas brancas e na sua agenda, de coisas parvas como «o meu gelado favorito é menta com pedacinhos de chocolate». Tentava que a confusão que se começava a gerar na sua cabeça não afectasse a sua vida, e a de Cláudia.

O tempo foi passando e, apesar de todo o esforço, a batalha, ainda que tão cheia de uma esperança visceral, tornou-se inglória. Aos poucos deixou de se lembrar das próprias notas, deixou de concluir todos os desafios, e o esforço para se manter sã era maior e mais cansativo que correr dez maratonas.

À noite forçava-se a decorar cada pedacinho da cara de Cláudia, cada detalhe dos seus movimentos, e dentro de si o medo aterrador de acordar amanhã sem saber quem ela era carne da sua carne.

Chegou atrasada ao trabalho dezassete vezes nesse mês. Esquecia-se frequentemente do caminho. Confundia o número do autocarro com o que apanhava em criança para a escola e ia parar ao lado oposto da cidade. Assustou-se com o reflexo do espelho umas quantas manhãs, por não se reconhecer. Ficava sentada na banheira, agarrada ao peito, a perguntar quem era aquela pessoa. Aquele não era o seu corpo. Afinal, tinha 16 anos e não 44! Fazia as mesmas compras três vezes ao dia. E chegou a ver o pai da filha, tal e qual como no dia em que se tinham conhecido, no meio da rua. Chamava, gritava por ele, e ele nunca a ouvia.

O dia em que teve de ser dispensada do trabalho foi talvez o único momento em que esteve perfeitamente lúcida e enquadrada na sua realidade presente. Clara sentia-se encurralada na própria vida, saltando de espaço temporal em espaço temporal da sua própria vida, e podia jurar a pés juntos que havia dias em que estava num pais diferente, e que era seguida por pessoas estranhas que diziam conhecê-la.

Cláudia fora tudo o que podia ter sido.

Tinha seguido a mãe ao trabalho todos os dias desde o 1º dia que ela se tinha perdido. Tinha contactos no trabalho dela que a iam notificando das pequenas coisas que ela fazia, ou deixava de fazer. Tinha chorado à porta da casa de banho, a cada manhã que a mãe deixava de se reconhecer. Congelava todas as compras a mais que a mãe fazia, para que ela não se apercebesse. Tinha ido buscar a mãe, confusa, no meio da rua a chamar pelo seu pai, mais de uma dezena de vezes. Tinha ligado à policia para que, quando a mãe fizesse queixa da senhora em casa dela, eles não fizessem caso, que era apenas uma familiar e que a mãe era doente.

Havia dias em que Clara não a reconhecia na cozinha ao pequeno almoço, e chamava pela sua própria mãe, como se tivesse acordado numa casa desconhecida. Havia outros, cada vez menos, é certo, em que lhe segurava a cara entre as mãos e a reconhecia: «Cláudia, és tu, meu amorzinho mais pequenino», enquanto os seus olhos brilhavam por ver a filha, como se não a visse há séculos.

A pouco e pouco, Cláudia deixou de a ver, todos os dias, menos um bocadinho, e conheceu por fim o rosto do Alzheimer. Porque é nisso que as pessoas se tornam ao fim de algum tempo, no retrato das próprias doenças, quase como se estas tivessem identidade.

Clara deixou de existir. Deixou de dizer os nomes reais da sua vida, e passou a dizer apenas frases desconexas, a chamar as pessoas que nunca tinha conhecido, ou já não existiam na sua vida. Cláudia acompanhou cada segundo, cada bocadinho de alma que ia com os dias, cada momento em que a sua saúde ia fraquejando, e em 9 meses viu a mulher que a criou, que amava perdidamente, fraquejar. Clara envelheceu mais de 20 anos em nove meses. Tornou-se um bebé. Foi literalmente carregada ao colo pela filha até ao fim dos seus dias.

Cláudia tinha a sensação de cuidar apenas do seu corpo, pois a mãe há muito que não vivia por lá. Numa tarde de Novembro, Clara estava estranhamente calada, não havia murmúrios de frases soltas, nem chamamentos de pessoas que não existiam. Nada. Apenas quietude no olhar, o vazio.

Cláudia soube. Era o adeus.

Aproximou-se da mãe, abraçou-a com a maior força que tinha, sem resposta a não ser sua fraca respiração.

— Adeus, mamã. Amo-te para sempre. Desculpa não ter feito mais — e chorou no pescoço, aproveitando um colo que já não estava lá, mas que tinha sido sempre seu.

Encostou a testa à de Clara, e, num vislumbre, já sem forças, a mãe reconheceu-a. Segundos antes de morrer, Clara chorou a última lágrima, por ter reconhecido a filha, no seu último momento de consciência. Cláudia teve, naquele último olhar, as mil conversas que não pôde ter nos últimos meses, e despediu-se em paz.

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ANDREIA FERNANDES, a destemida
27 anos. Sensível, engraçada e sarcástica. Convicta, mas sem fanatismos. Ansiosa e com uma queda para o dramático. Amante de leitura, música, cinema, pessoas de bom coração e mesas bem servidas. Sonha percorrer o mundo, e saber um pouco de tudo, sem nunca ter certezas absolutas de nada. Acredita piamente que a busca pela individualidade é infinita, que o amor se faz chegar de todas as formas e que não há limites para se ser feliz.